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sexta-feira, abril 07, 2006

Expressões Brasileiras 2: “Deixa comigo”




Nossos colegas latino-americanos se encantam com algumas expressões típicas do Brasil.
Um amigo chileno acha muito divertida nossa obsessão com a legalidade. Como ele bem observou, sempre que nos encontramos, antes de iniciar qualquer conversar perguntamos se tudo está legal.
Outro, mexicano, morre de rir sempre que alguém muito irritado afirma que “assim não dá”.
Mas a expressão que melhor representa os brasileiros, segundo a opinião de nossos colegas de habla hispânica, é “deixa comigo”.
“Deixa comigo” traduz a essência do talento brasileiro para a improvisação.
Além de indicar extrema boa vontade e interesse para com o problema do interlocutor, demonstra o poder de desarticulação de tensões e de harmonização de nosso povo.
Imagine a situação: você esta participando de uma discussão tensa sobre um problema que precisa ser resolvido. São 19h30 e você prometeu à sua mulher que estaria em casa antes das 7 para um jantar com amigos. A reunião não terminará antes que se encontre uma solução para o problema.
Problema por problema, você se vê tentado a lançar mão do bordão: “deixa comigo que eu resolvo”.
Todos concordam, a reunião se dissolve e você pode ir para casa resolver o outro problema (do atraso).
A diferença é que um companheiro latino menos avisado realmente acredita que você assumiu a responsabilidade pelo projeto em questão, a menos que esteja familiarizado com a cultura empresarial tupiniquim, que não considera relevante a atribuição clara de responsabilidades e de limites de autoridade.
E o interessante é que não se trata de uma questão de má fé. Legitimamente, você tentará encaminhar o problema no dia seguinte, embora provavelmente não tenha conhecimento ou autoridade suficiente para fazê-lo.
E se não der, convocará outra reunião, preferivelmente em um dia que não precise sair mais cedo para algum outro compromisso.
Certamente aparecerá outro candidato para assumir a responsabilidade por um novo período.

Expressões brasileiras 1: “Até aí, morreu o Neves !”

Qualquer um com mais de 40 anos, mesmo não sendo fã do Nelson Rodrigues, já deve ter ouvido a expressão: “até aí, morreu o Neves”.
A idéia é que, embora a morte do Neves seja um fato grave (alguém morreu), como ele representa apenas um ilustre desconhecido sem qualquer relação com os interlocutores, o fato não traz qualquer implicação maior e pode ser ignorado.
Ainda que a expressão em si já esteja em desuso, a atitude não poderia estar mais em voga.
Muito comum, principalmente em empresas multinacionais de origem norte americana que sofrem da síndrome do excesso jurídico, a crença de que “se não é da minha área então não é problema meu” encontra forte ressonância também no território nacional.
Talvez seja, no nosso caso, um efeito colateral de implementações de sistemas de otimização de gestão mal conduzidas.
Fato é que, ainda que a morte do Neves tenha ocorrido em outro departamento, a conta do enterro pode vir parar no seu centro de custo, e certamente o féretro circulará por toda a empresa, lembrando-nos de que poderíamos ter feito algo por ele quando ainda em vida.
E a sensação final será a de que, tal qual Elvis, o Neves não morreu. Ficará na memória de todos por um bom tempo.

quarta-feira, março 22, 2006

Pensando fora da caixa

Numa inspiradora entrevista ao jornalista do The Wire (jornal do grupo WPP), Peter Tortorici (presidente da MindShare Entertainment) fala sobre sua contribuição de sua divisão para os negócios do Grupo M, principalmente no que se refere à identificação de oportunidades de patrocínio e “product placement” para seus clientes, alinhadas com sua estratégia criativa.
Isso se dá através de acordos diretos com produtores de Hollywood, permitindo o acesso em primeira mão aos scripts e projetos, bem antes do início da produção.
A sinergia entre produtores e distribuidores de conteúdo de um lado, e as empresas que necessitam se comunicar do outro, é garantida pelo trabalho profissional do time do Grupo M, especialista em comunicação.
Nada incomum, já que esse é exatamente o papel das agências de propaganda (encontrar soluções ótimas para comunicação de seus clientes).
A diferença está na forma pela qual Tortorici e seu time encontram soluções diferenciadas, rompendo os caminhos convencionais.
O objetivo desta postagem não é promover particularmente Peter (que não conheço pessoalmente) ou o GrupoM.
Quero apenas destacar o fato de que um grupo de comunicação, atento às mudanças do cenário, agiu de forma antecipativa e buscou caminhos alternativos para garantir a manutenção da eficiência da comunicação de seus clientes, através da criação de modelos de negócio inovadores (participação direta em empresas produtoras e distribuidoras de conteúdo).
A idéia parece obvia quando apresentada, porque é simples.
Mas tem o mérito da inovação focada em resultados.
Para se honesto, não estou seguro de que o GrupoM tenha sido o primeiro a realizar esse tipo de negócio. Talvez tenha sido o primeiro a formalizá-lo e comunicá-lo formalmente como parte de sua estratégia, o que já não é pouco.
Fica o recado: no mundo dos negócios, mudança é sinônimo de oportunidade, mas requer o pensamento “out of the box”.

segunda-feira, março 20, 2006

Interrupções Ininterruptas


Numa interessante matéria da Revista Época sobre as implicações das novas tecnologias, encontrei a feliz expressão que coloco no título desta postagem.
De fato, somos ininterruptamente interrompidos em nossas atividades cotidianas, por celulares, e-mails, alertas de notícias (no browser), torpedos, telemarketing, estímulos visuais e auditivos diversos (mídia exterior e ponto de venda), interações pessoais (em casa, no escritório, nos semáforos), etc., etc..
O jornalista (ou articulista) menciona, ainda, que o volume de informações que recebemos hoje é significativamente superior ao de antigamente, comentando que uma única edição de um grande jornal de hoje traz mais informação do que um indivíduo médio receberia durante toda sua vida em épocas mais remotas.
Pessoalmente, tenho um outro olhar para essa situação, que gostaria de compartilhar com os leitores do Arguta.
Creio que o ser humano, em qualquer época, recebe informações continuamente através dos seus “sentidos” – os tradicionais visão, audição, tato, paladar e olfato, e os demais sentidos não catalogados genericamente agrupados como “sexto sentido” (material para uma posterior postagem).
O volume de informações recebido é determinado pela capacidade de captação do indivíduo e, salvo em situações limite, independe das fontes geradoras.
Explicando melhor, o mundo (exterior e interior) sempre nos ofereceu estímulos em infinita quantidade e, quer estejamos atentos ou não, nossos sentidos captam continuamente esses estímulos.
Podemos aceitar que um jornal impresso de hoje traz, realmente, mais informação de um determinado tipo (“jornalística”) do que um indivíduo receberia durante toda sua vida há 500 anos.
Mas, na prática, estamos adicionando apenas mais um grão de areia à praia de Copacabana.
Defendo que, até que cheguemos ao “momento Matrix” da informação, quando o conhecimento puder ser injetado sob pressão, elétrica ou quimicamente, diretamente em nosso cérebro, a quantidade de informação acessível não varia com a oferta, porque esta já é infinita.
O que muda é o perfil da atenção, influenciada pelo nível de estimulação a que somos submetidos.
Ou seja, ao sermos impactados pelo conteúdo de um jornal, de um podcast, de um programa de rádio ou de televisão, que momentaneamente pode estimular nossa atenção com maior intensidade do que o perfume de uma flor, o trinar dos rouxinóis, o brilho intermitente de uma estrela ou o sorriso de uma criança, podemos ficar com a (falsa) impressão de que, naquele momento, estamos recebendo um volume maior de informação.
Na verdade, as outras informações seguem sendo captadas por nossos sentidos e, ainda que nossa atenção intencional não esteja voltada para isso, também estarão sendo processadas em nossa mente, mesmo que de forma inconsciente.
Deixo a conclusão por conta dos leitores, que convido a comentar e debater o assunto neste espaço.

sexta-feira, março 17, 2006

Você já se engajou ?


Meu bom amigo Roberto Lobl acaba de partilhar comigo uma curiosa nota publicada na imprensa especializada em mídia norte-americana.
Em síntese, a nota comenta que os participantes do próximo congresso da ARF – Advertising Research Foundation – serão convidados a propor e debater uma definição para “Engagement”.
Engagement vem sendo a palavra da moda no cenário publicitário internacional nos últimos 2 ou 3 anos.
Sua relevância já foi reiteradamente enaltecida em congressos e seminários e não há um bom plano de comunicação que não coloque “engagement” como parte dos objetivos prioritários de uma campanha.
Muito oportuno, portanto, que alguém decida definir o que é, afinal de contas, esse tal de engagement, embora o Chief Research Officer da ARF, Joe Plummer, tenha afirmado que não será fácil obter uma definição concisa para essa métrica vital.
Ironias à parte, na prática a iniciativa reflete um amadurecimento (ainda que tardio) da indústria da comunicação, adicta aos narcóticos verbais (palavras que refletem conceitos subjetivos mas conferem um ar de modernidade ao conjunto da obra).
Encontrar definições precisas para conceitos relevantes e estabelecer métricas que permitam sua avaliação é um passo indispensável para garantir a alocação eficiente dos recursos de marketing e comunicação.
E muito bom constatar que estamos engajados nessa idéia.

quinta-feira, março 16, 2006

O bombrilzinho que dança


Trinta anos de mercado e sigo encantado com a força das marcas.
Noutro dia minha mulher me perguntou se eu havia visto o comercial da Assolan.
Perguntei qual e ela me respondeu: aquele do bombrilzinho que dança.
E tem gente que ainda acredita que é bom negócio deslocar o investimento em construção de marcas para o ponto de venda.
Claro que trabalhar o ponto de venda é importante. Um empurrãozinho de última hora pode motivar a compra por impulso. Diversas pesquisas confirmam isso.
Por outro lado, inúmeros trabalhos sérios indicam que a decisão de compra no ponto de venda para as principais categorias de produto depende da força da marca.
Para produtos considerados relevantes o consumidor tem suas marcas preferidas e sua escolha recai consistentemente sobre elas.
Mais do que isso, compras promocionadas raramente geram lealdade do consumidor. E promoção, principalmente na forma de desconto, custa bem mais do que propaganda.
De fato, o que funciona melhor é o conceito de comunicação integrada. O consumidor tem muitos canais de contato com a marca e a adequada coordenação desses canais de comunicação tem um efeito sinérgico significativo.
Por outro lado, quando a comunicação não é coordenada ou está desequilibrada, os resultados são penalizados.
Aí, quem dança é você !

sexta-feira, fevereiro 17, 2006

Redução de equipes


Dois funcionários da prefeitura de uma pequena cidade trabalham no jardim da praça.
Enquanto o primeiro, munido de uma pá, cava pequenos buracos, o segundo segue seus passos tapando imediatamente os buracos abertos.
Um cidadão curioso com a cena aparentemente absurda decide interrogá-los:
- Mas o que significa isso, senhores ?
- Estamos trabalhando ! – responde mal humorado o primeiro.
- E vocês tem certeza de que não há nada de errado nesse trabalho ? – retruca o cidadão.
- Olha, sem tem alguma coisa errada é culpa do Marcos. – apressa-se o segunda em explicar.
- Mas quem é esse tal de Marcos ? – pergunta, curioso, o transeunte.
- Marcos é o nosso chefe. Ele mandou embora o Adolfo, que era o cara que colocava as sementes.
(adaptado de Melhores Piadas de Seleções)

Moral da História
Se você pretende fazer uma redução na equipe, melhor repensar todo o processo antes.

sábado, fevereiro 11, 2006

Aprendendo com os Deuses 1 – ODIN


Segundo a “Encyclopaedia of Things that Never Were”, o onisciente e todo poderoso ODIN, governante de Asgard, o reino celeste dos deuses da mitologia nórdica, se assemelhava fisicamente aos grandes chefes Vikings e, como eles, era especialista nas artes da guerra e da paz. Ele ensinou aos homens como construir e usar suas armas e seus barcos para as explorações e conquistas e como compor suas músicas que narravam, com ritmos cadenciados, incontáveis histórias de homens e deuses, motivando-os para suas batalhas.
ODIN sabia de tudo que se passava no mundo por causa de seus dois corvos, Huginn e Muninn. Todas as manhãs ODIN os enviava para sobrevoar os domínios dos vivos e dos mortos e todas as noites eles retornavam e pousavam, um em cada ombro de ODIN, para contar os segredos dos homens e dos espíritos.
Ele está perpetuamente consciente de que, um dia, todos os deuses terão que lutar a última grande batalha contra as forças do mal, e é para isso que se prepara.
É interessante conhecer o significado dos nomes dos corvos de ODIN. Huginn e Muninn significam, respectivamente, Pensamento e Memória.
Ou seja, a noção de que um líder precisa capacitar e motivar sua equipe, coletar, armazenar e analisar informações e estar permanentemente preparado para os grandes desafios que terá que enfrentar não foi concebida em nenhum MBA do Século XX.

( a ilustração foi retirada da Wikipedia, e é da Islândia - Sec. XVIII)

terça-feira, fevereiro 07, 2006

Poltrona do Diretor: Aos fatalistas


Há um homem que caminha pelo jardim com um livro.
O homem é cego
O jardim é um labirinto de caminhos que se dividem, se ramificam e se recombinam.
Há estátuas no jardim. Estátuas enormes. Se elas se movem, como dizem alguns, é devagar demais para ser percebido.
O livro é pesado. Você não conseguiria levantá-lo.
....
Ele está acorrentado ao livro, ou o livro a ele. É um livro de muitas páginas. Não pode ser roubado. O homem não pode se desfazer dele.
O livro contém sua vida. Cada detalhe de sua vida. Tudo o que lhe aconteceu . Tudo o que lhe acontecerá um dia. As coisas que você esqueceu.
Contem tudo que já aconteceu ou acontecerá para todas as pessoas que você já conheceu.
O significado do formato das manchas de cada leopardo está escrito aqui, assim como a verdade das formas das nuvens, a estranha e divertida vida-canção das bactérias e os segredos que os ventos sussurram quando não há ninguém para escutar.
Tudo está aqui, desde o começo dos tempos até o apocalipse.
Ele não criou o caminho que você trilha.
Mas os movimentos dos átomos e das galáxias estão em seu livro, e ele vê pouca diferença entre eles.
Um dia ele o largará, quando o livro estiver terminado. E o que vem depois disso ainda não está escrito.
Uma página vira. O Destino continua a caminhar. Ele está segurando um livro.
Dentro do livro está o Universo.
(Neil Gaiman – Destino: Noites sem Fim)

O texto acima é do fantástico autor de Sandman. Destino, se não me equivoco, é um dos curiosos membros da família dos Perpétuos.
A imagem poética do homem com o livro onde tudo está escrito certamente encanta os fatalistas de plantão.
Mas Gaiman, sorrateiramente, insere o pequeno comentário: “Ele não criou o caminho que você trilha”.
Não por acaso, o comentário é seguido da afirmação: “Mas os movimentos dos átomos e galáxias estão em seu livro, e ele vê pouca diferença entre eles”.
Existem coisas muito pequenas ou grandes demais para que possamos interferir. Elas acontecerão. Está escrito. Independem de nossa vontade, embora seja muito útil conhecê-las e entendê-las.
Mas no infinito espaço entre elas, você pode escolher o caminho que irá trilhar.

sexta-feira, fevereiro 03, 2006

A mensagem das pontas


Piada compilada da Revista Seleções:
Caminhando pela rua uma criança se assusta com um enorme pastor alemão (cão).
- Na tenha medo – diz o dono. Pela forma como ele abana a cauda você pode ver que ele não quer lhe fazer mal.
E a criança responde:
- Acontece que de frente ele está rosnando e eu não sei em qual ponta devo acreditar !

O que podemos extrari desta estória, num paralelo com o mundo empresarial:
a) Até uma criança sabe que para avaliar uma situação precisamos avaliá-la por todos os ângulos;
b) O responsável pelo negócio sempre vai tentar chamar sua atenção para seu lado mais sedutor;
c) Por outro lado, nem sempre o que nos assusta representa, necessariamente, um perigo;
d) Há que se considerar que os negócios tem vida própria, podendo surpreender tanto os otimistas quanto os pessimistas;
e) Se o risco é uma mordida e a oportunidade é uma lambida, fico com a decisão da criança.