(artigo a ser publicado na Revista Marketing de agosto - Caçador de Tendências)Desde o advento dos BBS, precursores da Internet como conhecemos hoje, as sociedades vem discutindo o valor das relações virtuais.
No sentido comum, entende-se como uma relação virtual o contato entre pessoas fisicamente distantes exclusivamente através de interfaces tecnológicas, particularmente computadores e assemelhados.
Mais objetivamente, uma relação virtual deveria ter como contraponto a relação real, que requereria a presença física. Nesse contexto, uma relação por carta ou telefone seria, também, uma relação virtual.
Mas o termo só foi cunhado recentemente e, por isso, acabou vinculado ao mundo da Internet, também chamado de mundo virtual.
O uso inadequado das palavras “real” e “virtual” gera a confusão de conceitos.
O contato através da internet é, obviamente, tão real quanto qualquer outro.
Embora tenha características diferentes do contato presencial, pode gerar um encontro mais íntimo e verdadeiro do que este último.
O que um contato não presencial oferece de fundamentalmente diferente do contato presencial é a sensação de liberdade resultante da facilidade de sua interrupção. Em suma, sua potencial impermanência.
Interromper um relacionamento presencial nem sempre é simples. No caso de relacionamentos exclusivamente não presenciais a impunidade é maior.
O sociólogo polonês Zygmunt Bauman publicou diversos livros tratando dos relacionamentos ‘líquidos”.
As digressões de Bauman sobre a visão pós-moderna que temos da permanência dos relacionamentos é interessantíssima e recomendo a leitura de “Amor Líquido” (indicação de minha amiga Luisa Hinojosa).
As novas tecnologias simplesmente facilitam a realização do desejo, apontado por Bauman, de vivermos “relacionamentos de bolso”, dos quais podemos dispor quando necessário e tornar a guardar.
De certa forma, é parte da tendência utilitarista, uma vertente social crescente da última década.
A crítica aos relacionamentos virtuais (no senso comum) está, portanto, mal endereçada.
Caminhamos para uma era de novas expectativas no que se refere a relações pessoais, esperando trocar o “peso” dos compromissos pela “liberdade” da impermanência, embora, principalmente nesse momento de trasição, isso não nos satisfaça plenamente.
O que nos consola e motiva é perceber, em cada nova relação, uma oportunidade de bônus sem ônus.