Um fazendeiro resolve colher alguns frutos da sua propriedade. Pega num balde vazio e segue para o pomar. No caminho, ao passar pelo lago, ouve vozes femininas.
Ao aproximar-se lentamente, observa várias garotas nuas divertindo-se na água.
Quando elas percebem sua presença, nadam até à parte mais profunda da lagoa e gritam:
- Nós não vamos sair daqui enquanto você não for embora !
O fazendeiro responde:
- Tudo bem ... não estou aqui para espiar vocês ... vim só alimentar os jacarés ...
Moral da História:
É a criatividade que faz a diferença na hora de atingirmos nossos objetivos.
sexta-feira, fevereiro 09, 2007
Crônicas da Vida Empresarial - Personagem 4: Jailton
Jailton é um sujeito incomum.
A primeira vista, cínico, debochado e superficial, dono de uma sinceridade acachapante e pouco convidativa.
Entretanto, vale a pena conhecer um pouco de sua história.
Jailton abandonou a faculdade de Ciências Sociais no segundo ano. Já havia lido todos os livros recomendados até o final de curso e a bibliografia mencionada em cada um deles.
Seu raciocínio verbal e sua impressionante capacidade para assimilar informações relevantes (a seu melhor juízo) faziam dele, já naquela época, um argumentador imbatível.
A motivação para o debate só era superada pela impaciência com o que julgava ser um surto de ignorância coletiva que transpassava o universo acadêmico de ponta a ponta.
Afastou-se dos colegas (uns imbecis), indispôs-se com professores (imbecis diplomados) e concluiu que o mundo acadêmico era um emburrecedor desperdício de tempo.
Partiu para uma vida de decepções. Nada estava a altura de seus ideais nietzschianos.
Namoradas, chefes, companheiros, clientes, sócios em empreitadas quase megalomaníacas, todos terminavam por comprovar sua teoria básica sobre os seres humanos em geral:
- Ninguém tem coragem de pensar por conta própria. A humanidade dita culta questiona o supérfluo e recolhe-se na segurança da reafirmação dos valores pequeno-burgueses. – dizia ele à mesa do boteco, arrematando com o bordão: “Navegar é preciso. Por isso bebo em quantidades navegáveis ! “
Não saberia dizer quando ou porque, mas acercando-se dos 40 anos, um solitário de muitas relações, sentiu-se mudar.
Não foi propriamente uma desistência. Foi mais uma aceitação (ele era como era, e o mundo como sempre fora) e um intento de conciliação.
- Eu e o mundo vamos tentar viver juntos – dizia para os mais próximos, no princípio.
“Relacionamentos baseiam-se em interesses e necessidades. São processos de troca continuada de favores. Recebo do mundo alguns prazeres e pago com minha sinceridade.”
Decidiu, então, que seria essa a forma de contribuir para o mundo: jamais pactuar com a hipocrisia. Jailton fala o que pensa, e devolve ao mundo o que vê, principalmente quando todos ao seu redor preferem fazer de conta que não estão vendo.
- Reflito o mundo, para que o mundo possa refletir ...
Aprendeu, também, a se comunicar utilizando o repertório médio da humanidade. Interiorizou um conversor automático.
Já não sugeria a adoção de medidas profiláticas para evitar contrariedades no ambiente de trabalho. Optava por recomendar algo como “vamos cuidar para não dar merda !”.
Era uma forma de “pertencer”, fazer parte do grupo.
Como também era sua iniciativa de participar dos happy hour no Degas.
A sensação de torturante desperdício de tempo causada pelas longas conversas vazias foi gradativamente substituída por um legítimo interesse pela dinâmica das pessoas e seus relacionamentos. Jailton, finalmente, estava aprendendo a viver nesse mundo.
E foi então que pode descobrir a Estela, sua musa, misteriosa e inatingível.
Jailton percebeu que por trás da aparência superficial, infantil e coquete de Estela, havia uma mulher inspiradora e interessante a ser descoberta.- Preste atenção nos olhos, Rodolfo, não nos peitos ... – comentou certa vez. Aqueles peitos fazem parte de uma estratégia disruptiva. E aquele ar de gata no cio também. Ela sabe que a gente só consegue usar uma cabeça de cada vez ...
A primeira vista, cínico, debochado e superficial, dono de uma sinceridade acachapante e pouco convidativa.
Entretanto, vale a pena conhecer um pouco de sua história.
Jailton abandonou a faculdade de Ciências Sociais no segundo ano. Já havia lido todos os livros recomendados até o final de curso e a bibliografia mencionada em cada um deles.
Seu raciocínio verbal e sua impressionante capacidade para assimilar informações relevantes (a seu melhor juízo) faziam dele, já naquela época, um argumentador imbatível.
A motivação para o debate só era superada pela impaciência com o que julgava ser um surto de ignorância coletiva que transpassava o universo acadêmico de ponta a ponta.
Afastou-se dos colegas (uns imbecis), indispôs-se com professores (imbecis diplomados) e concluiu que o mundo acadêmico era um emburrecedor desperdício de tempo.
Partiu para uma vida de decepções. Nada estava a altura de seus ideais nietzschianos.
Namoradas, chefes, companheiros, clientes, sócios em empreitadas quase megalomaníacas, todos terminavam por comprovar sua teoria básica sobre os seres humanos em geral:
- Ninguém tem coragem de pensar por conta própria. A humanidade dita culta questiona o supérfluo e recolhe-se na segurança da reafirmação dos valores pequeno-burgueses. – dizia ele à mesa do boteco, arrematando com o bordão: “Navegar é preciso. Por isso bebo em quantidades navegáveis ! “
Não saberia dizer quando ou porque, mas acercando-se dos 40 anos, um solitário de muitas relações, sentiu-se mudar.
Não foi propriamente uma desistência. Foi mais uma aceitação (ele era como era, e o mundo como sempre fora) e um intento de conciliação.
- Eu e o mundo vamos tentar viver juntos – dizia para os mais próximos, no princípio.
“Relacionamentos baseiam-se em interesses e necessidades. São processos de troca continuada de favores. Recebo do mundo alguns prazeres e pago com minha sinceridade.”
Decidiu, então, que seria essa a forma de contribuir para o mundo: jamais pactuar com a hipocrisia. Jailton fala o que pensa, e devolve ao mundo o que vê, principalmente quando todos ao seu redor preferem fazer de conta que não estão vendo.
- Reflito o mundo, para que o mundo possa refletir ...
Aprendeu, também, a se comunicar utilizando o repertório médio da humanidade. Interiorizou um conversor automático.
Já não sugeria a adoção de medidas profiláticas para evitar contrariedades no ambiente de trabalho. Optava por recomendar algo como “vamos cuidar para não dar merda !”.
Era uma forma de “pertencer”, fazer parte do grupo.
Como também era sua iniciativa de participar dos happy hour no Degas.
A sensação de torturante desperdício de tempo causada pelas longas conversas vazias foi gradativamente substituída por um legítimo interesse pela dinâmica das pessoas e seus relacionamentos. Jailton, finalmente, estava aprendendo a viver nesse mundo.
E foi então que pode descobrir a Estela, sua musa, misteriosa e inatingível.
Jailton percebeu que por trás da aparência superficial, infantil e coquete de Estela, havia uma mulher inspiradora e interessante a ser descoberta.- Preste atenção nos olhos, Rodolfo, não nos peitos ... – comentou certa vez. Aqueles peitos fazem parte de uma estratégia disruptiva. E aquele ar de gata no cio também. Ela sabe que a gente só consegue usar uma cabeça de cada vez ...
terça-feira, fevereiro 06, 2007
Uma poesia para encerrar a noite...
Entrei no blog na minha mãe (sim, ela tem um blog) e não pude evitar: roubei uma poesia !
Obrigada, meu Pai
Obrigada, meu Pai, por permitir
Que eu fosse odiada assim...
como se eu fosse forte!
E devesse ser temida. E tivesse poder.
Foi lisonjeiro, Senhor!
Mas ( perdoe-me a ironia ),
Tanto doeu,
Que eu não quero ser mais eu.
(Zuleica Seabra Ferrari/SP - julho/1987)
Obrigada, meu Pai
Obrigada, meu Pai, por permitir
Que eu fosse odiada assim...
como se eu fosse forte!
E devesse ser temida. E tivesse poder.
Foi lisonjeiro, Senhor!
Mas ( perdoe-me a ironia ),
Tanto doeu,
Que eu não quero ser mais eu.
(Zuleica Seabra Ferrari/SP - julho/1987)
domingo, fevereiro 04, 2007
Crônicas da Vida Empresarial: Dalton e o Dr. Almeida Passos
Dalton é o segurança do Dr. Almeida Passos, vice-presidente da empresa.
Sujeito de poucas palavras, olhar penetrante e físico discretamente imponente.
Pele morena como a de certas castas hindus, cabelo liso e grosso, penteado para o lado e aparado curto, mas cheio. Traços fortes, olhos redondos, nariz grande.
- Cafuso ! – adivinhou noutro dia o Rodolfo, deixando confusos os mais jovens do escritório que desconheciam essa “etnia”.
E falando em castas, Dr. Almeida Passos era um desses que acreditava que a diretoria era uma casta superior, e mantinha uma solene distância dos subalternos.
Como conseqüência inevitável, multiplicavam-se as histórias sobre sua pessoa.
- Conheço o tipo ... capacho da mulher – vaticinou Jailton, durante o happy no Degas.
- Ela é bem mais jovem do que ele ... e dizem que tem um caso com o Dalton – deixou escapar Estela depois de algumas cervejas, com um inesperado suspiro que provocou olhares de interrogação ao redor da mesa.
A verdade é que pouco se sabia desses dois personagens, além de boatos que incluíam a própria Estela, potencial amante do Dr. Almeida Passos e, depois daquele suspiro, também do segurança.
- Ontem eu vi o seu Dalton saindo com a Dona Constância – comentou Marcio Alberto, o office boy do departamento.
- Ontem ?!? A que horas ? - quis saber prontamente o Jailton.
- No final da tarde. E estavam com pressa. Seu Dalton saiu cantando pneu.
Jailton trocou um olhar de cumplicidade com o Rodolfo do outro lado da mesa.
A imagem da Mercedes branca do Dr. Almeida Passos, dirigida pelo Dalton em companhia de Dona Constância, cantando pneus no pátio da empresa era, no mínimo, novelesca.
A semana tinha começado com um longo discurso do Dr. Almeida Passos no auditório, para todos os funcionários.
Óculos na ponta do nariz e texto na mão, digladiou-se longamente com o microfone enquanto imaginava inspirar e motivar a equipe a alinhar-se com a missão e os valores da empresa.
Rodolfo, de cabeça baixa e ar de enfado, sentado na penúltima fila, comentou para quem quisesse ouvir:
- Façam o que eu digo mas não o que eu faço ...
Ninguém riu. O caso era mais para chorar.
Dr. Almeida era um obscuro diretor de divisão que havia chegado à vice-presidência por um golpe de sorte, após o súbito falecimento de seu antecessor. Sua velha amizade com o fundador da companhia, já aposentado, valeu a recomendação do diretor de Recursos Humanos para ocupar interinamente o cargo, enquanto procuravam alguém no mercado.
Seu primeiro ato ao assumir a vice-presidência foi demitir o diretor de Recursos Humanos e promover uma jovem gerente, que prontamente o adotou como mentor.
Tendo o controle da área, e considerando que o diretor financeiro não queria confusão para o seu lado porque também estava para se aposentar, perpetuou-se no cargo.
Dalton era o responsável pela segurança da unidade dirigida pelo Dr. Almeida Passos. Ao ser guindado para a vice-presidência, decidiu trazê-lo como segurança particular. Na prática, era seu assessor e homem de confiança.
De confiança apenas do Dr. Almeida Passos, porque todos na empresa temiam o Dalton.
- Aí tem truta .. aí tem truta ... – repetia Jailton com uma freqüência maior do que seria recomendável.
Sujeito de poucas palavras, olhar penetrante e físico discretamente imponente.
Pele morena como a de certas castas hindus, cabelo liso e grosso, penteado para o lado e aparado curto, mas cheio. Traços fortes, olhos redondos, nariz grande.
- Cafuso ! – adivinhou noutro dia o Rodolfo, deixando confusos os mais jovens do escritório que desconheciam essa “etnia”.
E falando em castas, Dr. Almeida Passos era um desses que acreditava que a diretoria era uma casta superior, e mantinha uma solene distância dos subalternos.
Como conseqüência inevitável, multiplicavam-se as histórias sobre sua pessoa.
- Conheço o tipo ... capacho da mulher – vaticinou Jailton, durante o happy no Degas.
- Ela é bem mais jovem do que ele ... e dizem que tem um caso com o Dalton – deixou escapar Estela depois de algumas cervejas, com um inesperado suspiro que provocou olhares de interrogação ao redor da mesa.
A verdade é que pouco se sabia desses dois personagens, além de boatos que incluíam a própria Estela, potencial amante do Dr. Almeida Passos e, depois daquele suspiro, também do segurança.
- Ontem eu vi o seu Dalton saindo com a Dona Constância – comentou Marcio Alberto, o office boy do departamento.
- Ontem ?!? A que horas ? - quis saber prontamente o Jailton.
- No final da tarde. E estavam com pressa. Seu Dalton saiu cantando pneu.
Jailton trocou um olhar de cumplicidade com o Rodolfo do outro lado da mesa.
A imagem da Mercedes branca do Dr. Almeida Passos, dirigida pelo Dalton em companhia de Dona Constância, cantando pneus no pátio da empresa era, no mínimo, novelesca.
A semana tinha começado com um longo discurso do Dr. Almeida Passos no auditório, para todos os funcionários.
Óculos na ponta do nariz e texto na mão, digladiou-se longamente com o microfone enquanto imaginava inspirar e motivar a equipe a alinhar-se com a missão e os valores da empresa.
Rodolfo, de cabeça baixa e ar de enfado, sentado na penúltima fila, comentou para quem quisesse ouvir:
- Façam o que eu digo mas não o que eu faço ...
Ninguém riu. O caso era mais para chorar.
Dr. Almeida era um obscuro diretor de divisão que havia chegado à vice-presidência por um golpe de sorte, após o súbito falecimento de seu antecessor. Sua velha amizade com o fundador da companhia, já aposentado, valeu a recomendação do diretor de Recursos Humanos para ocupar interinamente o cargo, enquanto procuravam alguém no mercado.
Seu primeiro ato ao assumir a vice-presidência foi demitir o diretor de Recursos Humanos e promover uma jovem gerente, que prontamente o adotou como mentor.
Tendo o controle da área, e considerando que o diretor financeiro não queria confusão para o seu lado porque também estava para se aposentar, perpetuou-se no cargo.
Dalton era o responsável pela segurança da unidade dirigida pelo Dr. Almeida Passos. Ao ser guindado para a vice-presidência, decidiu trazê-lo como segurança particular. Na prática, era seu assessor e homem de confiança.
De confiança apenas do Dr. Almeida Passos, porque todos na empresa temiam o Dalton.
- Aí tem truta .. aí tem truta ... – repetia Jailton com uma freqüência maior do que seria recomendável.
sexta-feira, fevereiro 02, 2007
Crônicas da Vida Empresarial:- Rodolfo e Jailton fofocam ...
Num canto da sala, ao lado da mesa do Jailton, Rodolfo jazia em pé, incrédulo.
- Não me diga, Jailton ...
- Agora já disse. Ela mesma, saiu alteradíssima.
- Mas justo ela, nosso baluarte do equilíbrio emocional.
- É ... a Tancinha tava trincada ! – Depois daquela novela, Jailton passara a se referir à Dona Constância dessa maneira jocosa, por “similaridade de ancas” (sic).
– Algo deve ter acontecido.
- Algo sempre acontece, Jailton. O Universo vive em constante movimento.
- Algo grave, eu quis dizer...
- A gravidade não é uma qualidade do fato em si, é uma atribuição psico-emocional, uma projeção ...
- Pôrra Rodolfo, dá para parar de filosofar e continuar com a fofoca.
Embora fosse um declarado admirador do Rodolfo, aliás o único colega de escritório que merecia seu verdadeiro respeito, Jailton não era exatamente apaixonado por pensamentos metafísicos. Segundo ele, a metafísica era um engodo. A palavra prometia sexo explícito mas, na prática, tratava-se de masturbação mental (sic, again).
- Ta, ta ... mas como foi isso ?
Jailton inclinou-se na cadeira se aproximando de Rodolfo e sussurrou.
- Ela recebeu um telefonema. Não deu para ouvir o que estava falando. Ficou pálida, gaguejou ... parecia que estava com medo de alguma coisa.
- Você não ouviu nem uma palavra ?
- Frases soltas ... “você não pode”... “eu não vou” ... “isto não está certo” ... “de novo não” ...
- Muito estranho ...
- Aí ela disse algo como “está bem, estou indo para aí “. Desligou o computador, pegou a bolsa e saiu como se estivesse carregando o mundo nas costas.
- Será algum problema com a família ?
- Nem por um cacete, Rodolfo. Não quadra. E você precisava ter visto o olhar dela. Distante, gelado ... um misto de ódio e resignação. Nunca vi a Tancinha assim...
Jailton tinha um especial talento para perceber as emoções das pessoas pelo olhar, o que explicava, em boa parte, seu sucesso com o público feminino.
- Olá meus queridinhos ... Fofocando ?
Compenetrados na conversa e distraídos com o mistério, eles não haviam percebido a aproximação da Estela.
- A tarde acaba de ganhar um outro colorido com a chegada do sol ... – Jailton sempre pensava rápido nessas situações.
- Não vem não, Já ... – Estela lançou um daqueles sorrisos sacanas irresistíveis. – Te conheço desde outros carnavais !
- Pois é, e nem no Carnaval ... Aliás, quer ir para a praia comigo no próximo ?
- Nem pensar, meu bem ... Mas aceito um café se você pagar ...
- Ta legal ... vai passar um batom nessa boquinha linda que hoje eu estou masoquista. Em dois minutos eu acabo a conversa com o Rodolfo. Estourei o orçamento de novo e ele está me dando uns toques.
- Rodolfo !?! Esse Jailton ainda vai te levar para o mau caminho. – Estela deu uma piscadinha charmosa para o Rodolfo, insinuando que aprovava a potencial degradação moral do filósofo e se afastou em direção ao banheiro.
- Depois a gente continua o papo, Rodolfo.
- Ta, mas vamos ficar de olho. Ela pode estar precisando da nossa ajuda.
- Se ela precisa de ajuda eu não sei, mas eu não vou conseguir dormir direito enquanto não descobrir o que a Tancinha está escondendo.
- A curiosidade matou o gato, Jailton.
- Mas ele deve ter se divertido bastante antes ! Agora deixa eu tomar café com a loirinha. De batom vermelho e sem sutiã... É hoje que eu infarto !!!
- Não me diga, Jailton ...
- Agora já disse. Ela mesma, saiu alteradíssima.
- Mas justo ela, nosso baluarte do equilíbrio emocional.
- É ... a Tancinha tava trincada ! – Depois daquela novela, Jailton passara a se referir à Dona Constância dessa maneira jocosa, por “similaridade de ancas” (sic).
– Algo deve ter acontecido.
- Algo sempre acontece, Jailton. O Universo vive em constante movimento.
- Algo grave, eu quis dizer...
- A gravidade não é uma qualidade do fato em si, é uma atribuição psico-emocional, uma projeção ...
- Pôrra Rodolfo, dá para parar de filosofar e continuar com a fofoca.
Embora fosse um declarado admirador do Rodolfo, aliás o único colega de escritório que merecia seu verdadeiro respeito, Jailton não era exatamente apaixonado por pensamentos metafísicos. Segundo ele, a metafísica era um engodo. A palavra prometia sexo explícito mas, na prática, tratava-se de masturbação mental (sic, again).
- Ta, ta ... mas como foi isso ?
Jailton inclinou-se na cadeira se aproximando de Rodolfo e sussurrou.
- Ela recebeu um telefonema. Não deu para ouvir o que estava falando. Ficou pálida, gaguejou ... parecia que estava com medo de alguma coisa.
- Você não ouviu nem uma palavra ?
- Frases soltas ... “você não pode”... “eu não vou” ... “isto não está certo” ... “de novo não” ...
- Muito estranho ...
- Aí ela disse algo como “está bem, estou indo para aí “. Desligou o computador, pegou a bolsa e saiu como se estivesse carregando o mundo nas costas.
- Será algum problema com a família ?
- Nem por um cacete, Rodolfo. Não quadra. E você precisava ter visto o olhar dela. Distante, gelado ... um misto de ódio e resignação. Nunca vi a Tancinha assim...
Jailton tinha um especial talento para perceber as emoções das pessoas pelo olhar, o que explicava, em boa parte, seu sucesso com o público feminino.
- Olá meus queridinhos ... Fofocando ?
Compenetrados na conversa e distraídos com o mistério, eles não haviam percebido a aproximação da Estela.
- A tarde acaba de ganhar um outro colorido com a chegada do sol ... – Jailton sempre pensava rápido nessas situações.
- Não vem não, Já ... – Estela lançou um daqueles sorrisos sacanas irresistíveis. – Te conheço desde outros carnavais !
- Pois é, e nem no Carnaval ... Aliás, quer ir para a praia comigo no próximo ?
- Nem pensar, meu bem ... Mas aceito um café se você pagar ...
- Ta legal ... vai passar um batom nessa boquinha linda que hoje eu estou masoquista. Em dois minutos eu acabo a conversa com o Rodolfo. Estourei o orçamento de novo e ele está me dando uns toques.
- Rodolfo !?! Esse Jailton ainda vai te levar para o mau caminho. – Estela deu uma piscadinha charmosa para o Rodolfo, insinuando que aprovava a potencial degradação moral do filósofo e se afastou em direção ao banheiro.
- Depois a gente continua o papo, Rodolfo.
- Ta, mas vamos ficar de olho. Ela pode estar precisando da nossa ajuda.
- Se ela precisa de ajuda eu não sei, mas eu não vou conseguir dormir direito enquanto não descobrir o que a Tancinha está escondendo.
- A curiosidade matou o gato, Jailton.
- Mas ele deve ter se divertido bastante antes ! Agora deixa eu tomar café com a loirinha. De batom vermelho e sem sutiã... É hoje que eu infarto !!!
quinta-feira, fevereiro 01, 2007
Pensamento da madrugada
A justiça é a conveniência do mais forte.
(Trasímoco, sofista grego)
- e não é que esse pensamento irritante sobriveve aos séculos ?!?!
(Trasímoco, sofista grego)
- e não é que esse pensamento irritante sobriveve aos séculos ?!?!
quarta-feira, janeiro 31, 2007
Crônicas da vida empresarial: personagem 3 - Rodolfo
Rodolfo era um sobrevivente.
Passara dos 50 anos e "ainda" não tinha um cargo de gerencia.
Não que almejasse isso. Na verdade, nem dava para a coisa. Mas fato é que para os padrões vigentes a mulher precisa casar e o homem deve ser gerente antes dos 50.
Escapara por pura sorte da selvagem onda de substituição da velha pela nova geração, que assolara os anos 90. Alguem lá na diretoria decidira mantê-lo por um pouco mais de tempo na equipe, até que a moçada estivesse mais preparada.
A moda passou e o Rodolfo, que não costumava criar caso com ninguém, ficou.
Rodolfo não era um borra botas ou lambe fraldas. Era um sábio. Escutava mais do que falava. Se havia um problema procurava estar do lado da solução. Não confrontava ordens, mas também não as cumpria cegamente. Quando algo não fazia sentido, esperava o momento oportuno para plantar a semente da dúvida e deixava que o chefe (um cada vez mais jovem do que o outro) repensasse sua posição.
Não competia. Apoiava.
Fazia elogios públicos e críticas (sempre construtivas) privadas.
Se Estela era a alma do escritório, Rodolfo era a consciência, que conferia uma tranquila segurança aos jovens impetuosos.
- Vai dar merda ! Melhor falar com o Rodolfo. - era o comentário clássico do Jailton, que sabia reconhecer o valor da experiência nos momentos críticos.
Embora não fosse particularmente saudosista, Rodolfo as vezes era surpreendido sorrindo ao sabor de lembranças de outros tempos (era, também, o mais antigo funcionário da divisão).
Tempos em que a alma do escritório era outra: Dona Quitéria.
Troque-se a sensualidade e a safadeza da Estela por carinho e humor maroto e temos Dona Quitéria, claro que alguns quilinhos a mais, porque os ideais de beleza eram outros.
Dona Quitéria, jovem senhora de 30 e poucos anos, tinha um amor maternalmente democrático por seus companheiros de trabalho, embora não conseguisse esconder uma certa predileção por Ernesto, jovem brilhante mas desregrado como seus cabelos, dono de um insuperável senso de humor e de uma infinita capacidade de não se levar a sério.
- Com a Quitéria, conversávamos ... - lembrava Rodolfo, numa talvez injusta comparação com os papos superficiais do Degas. A Estela me desconcentra. Alias, é assim que estamos, desconcentrados, superficiais e modernos. Nem melhores, nem piores ... mo-der-nos !
Na sua percepção, haviam deixado de ser uma família para transformar-se em um grupo buscando desesperadamente atuar como uma equipe. Não sabia se a troca da musa era causa ou efeito, mas que estava carregada de simbolismo, isso lá estava.
- Antes, trabalhavamos para merecer o amor e os cuidados da Quitéria. Agora, para impressionar a Estela, no caso dos homens, ou para competir com ela, no caso das mulheres.
Nem melhor, nem pior ... outros tempos - afirmava desapaixonadamente.
Não havia qualquer amargura em seus comentários. Rodolfo conquistara a serenidade dos sábios, tirando do passado não mais do que lições para viver melhor no presente.
- O futuro é coisa da diretoria. Quando virar presente eu cuido ...
Passara dos 50 anos e "ainda" não tinha um cargo de gerencia.
Não que almejasse isso. Na verdade, nem dava para a coisa. Mas fato é que para os padrões vigentes a mulher precisa casar e o homem deve ser gerente antes dos 50.
Escapara por pura sorte da selvagem onda de substituição da velha pela nova geração, que assolara os anos 90. Alguem lá na diretoria decidira mantê-lo por um pouco mais de tempo na equipe, até que a moçada estivesse mais preparada.
A moda passou e o Rodolfo, que não costumava criar caso com ninguém, ficou.
Rodolfo não era um borra botas ou lambe fraldas. Era um sábio. Escutava mais do que falava. Se havia um problema procurava estar do lado da solução. Não confrontava ordens, mas também não as cumpria cegamente. Quando algo não fazia sentido, esperava o momento oportuno para plantar a semente da dúvida e deixava que o chefe (um cada vez mais jovem do que o outro) repensasse sua posição.
Não competia. Apoiava.
Fazia elogios públicos e críticas (sempre construtivas) privadas.
Se Estela era a alma do escritório, Rodolfo era a consciência, que conferia uma tranquila segurança aos jovens impetuosos.
- Vai dar merda ! Melhor falar com o Rodolfo. - era o comentário clássico do Jailton, que sabia reconhecer o valor da experiência nos momentos críticos.
Embora não fosse particularmente saudosista, Rodolfo as vezes era surpreendido sorrindo ao sabor de lembranças de outros tempos (era, também, o mais antigo funcionário da divisão).
Tempos em que a alma do escritório era outra: Dona Quitéria.
Troque-se a sensualidade e a safadeza da Estela por carinho e humor maroto e temos Dona Quitéria, claro que alguns quilinhos a mais, porque os ideais de beleza eram outros.
Dona Quitéria, jovem senhora de 30 e poucos anos, tinha um amor maternalmente democrático por seus companheiros de trabalho, embora não conseguisse esconder uma certa predileção por Ernesto, jovem brilhante mas desregrado como seus cabelos, dono de um insuperável senso de humor e de uma infinita capacidade de não se levar a sério.
- Com a Quitéria, conversávamos ... - lembrava Rodolfo, numa talvez injusta comparação com os papos superficiais do Degas. A Estela me desconcentra. Alias, é assim que estamos, desconcentrados, superficiais e modernos. Nem melhores, nem piores ... mo-der-nos !
Na sua percepção, haviam deixado de ser uma família para transformar-se em um grupo buscando desesperadamente atuar como uma equipe. Não sabia se a troca da musa era causa ou efeito, mas que estava carregada de simbolismo, isso lá estava.
- Antes, trabalhavamos para merecer o amor e os cuidados da Quitéria. Agora, para impressionar a Estela, no caso dos homens, ou para competir com ela, no caso das mulheres.
Nem melhor, nem pior ... outros tempos - afirmava desapaixonadamente.
Não havia qualquer amargura em seus comentários. Rodolfo conquistara a serenidade dos sábios, tirando do passado não mais do que lições para viver melhor no presente.
- O futuro é coisa da diretoria. Quando virar presente eu cuido ...
terça-feira, janeiro 30, 2007
Pensamento da Tarde ...
Ocupe-se de pouco para ser feliz (Demócrito, para a revista Época)
Ninguém com múltiplas tarefas pode aspirar a felicidade. Uma agenda cheia equivale a sobrecarregar o espírito e traz inevitavelmente a angústia.
ps - Aguardem o perfil do Rodolfo na próxima postagem ...
Ninguém com múltiplas tarefas pode aspirar a felicidade. Uma agenda cheia equivale a sobrecarregar o espírito e traz inevitavelmente a angústia.
ps - Aguardem o perfil do Rodolfo na próxima postagem ...
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