O problema com os vôos diurnos é a absoluta falta do que fazer.
Dez horas em um avião, mesmo na classe executiva, é muito tempo para uma pessoa levemente agitada como eu.
Na primeira meia hora de qualquer vôo costumo dormir. Quando a porta principal fecha, a cabine é pressurizada. Aliás, quando o avião ainda está no solo, melhor seria dizer despressurizada, já que a pressão do ar na cabine é menor do que uma atmosfera.
Sou sensível à redução do nível de oxigênio e apago. Basta relaxar.
Obviamente, nos aviões, como nos hospitais, as aeromoças estão alí para garantir que você obtenha o máximo por seu dinheiro. Não podem ver um sujeito dormindo e logo o acordam para perguntar se ele prefere dormir ou jantar. Eu já experimentei responder que preferia dormir, mas as aeromoças tem uma técnica toda especial para caminhar pelos corredores dos aviões, batendo a ponta do salto do sapato de forma desritmada, como alguém que tropeça na escada ou que chega correndo e para subitamente. E se isso não for suficiente para acordá-lo, dão um jeito de esbarrar em você, derrubar alguma coisa, entregar alguma coisa (uma garrafa de água, um formulário) ou, simplesmente, perguntar se você está bem e se quer mais alguma coisa. Tudo para que você não deixe de aproveitar o vôo.
Sendo assim, hoje em dia, aceito o jantar. E correspondo à melhores expectativas da aeromoça. Aceito e durmo. Ela me acorda para receber a toalha de mão, que eu uso e durmo. Ela me acorda para abrir a mesa, eu abro e durmo. E assim, seguimos nesse joguinho até o final do jantar, quando ela lança mão do truque master da segunda hora de vôo .... a bandeja esquecida. Como você gostaria de ir ao banheiro, lavar suas mãos e escovar seus dentes antes de voltar a dormir, a aeromoça não retira a bandeja da sua frente, garantindo um estado de leve tensão e expectativa, suficiente para mantê-lo acordado por mais uns 20 minutos.
E desenvolvi uma contra-técnica para isso. Assim que a aeromoça passa, levanto a bandeja, estico-a na direção do corredor e peço que segure um pouco, fazendo uma cara de quem derrubou alguma coisa importante. Olho para ela somente o tempo suficiente para fazer o pedido e, em seguida, desvio minha atenção para a cadeira meio afobado, já com jeito de quem vai largar a bandeja. É automático. elas sempre seguram a bandeja.
Fato é que 10 horas de vôo dariam muita história para contar e, embora eu esteja aqui, já na 6a hora e bastante entediado, não vou escrever um texto de 4 horas para vocês, certo?
O bom é que estou chegando em casa e que terei 24 horas inteirinhas em terra firme antes da próxima viagem.
sábado, maio 30, 2009
sexta-feira, maio 29, 2009
Missão Cumprida 3
Como prometido, aqui estou eu em Lisboa, em frente ao famoso Café "A Brasileirinha" no Largo do Chiado, para o encontro com nosso amigo blogueiro de além-mar. Tapadinhas, ao meu lado, de olhos fechados saboreando o momento e enviando (em pensamento) um beijo para todos seus amigos aqui do Brasil.Entreguei-lhe um exemplar do "Pecado e Capital", autografado pelo Ernesto e por mim. Expliquei ao Tapadinhas que o Ernesto fugiu da escola muito cedo, antes de aprender a escrever e, por isso, tive que assinar por ele. Mas que outra pessoa é capaz de transformar um liquidificador caseiro num varal elétrico para sua lavanderia ?
Transmiti-lhe beijos e abraços de todos. Ele não chegou a chorar de emoção, mas ficou feliz.
Ganhei de presente o estudo que fez para um de seus quadros que mais gostei. Adorei e levo para fazer companhia à MonaLisa no museu doméstico.
A prosa foi ótima e passamos uma tarde agradabilíssima, sob um sol de 36 graus.
Na sequência, aproveitei para jantar com o José Manoel, nosso sócio aqui em Portugal.
(para não ficarem dizendo por aí que só sei paquerar romenas ...)
quinta-feira, maio 28, 2009
Missão cumprida 2

O congresso foi ótimo, organização explendida, equipamentos de audio e vídeo eficientíssimos e palestras razoavelmente interessantes.
Apesar da pouca luz, permaneci acordado antes e depois da minha palestra, vejam só.
Seguiu-se um coquetel e um jantar à beira da piscina no jardim do hotel (o tempo aqui está maravilhoso) com direito a violões espanhóis e companhia internacional.
Jantei numa mesa com suiços, holandeses e romenos.
Todos muito simpáticos, particularmente as garotas romenas. Aprendi que o romeno é uma língua predominantemente latina e que tem razoável semelhança com português, pelo que já dei o endereço do Arguta Café para Ramona e Alina. Prometeram nos visitar e deixar comentários em sua língua de origem. Se cumprirem a promessa, vamos nos divertir para entender.
Alias, vale observar que a Romania (como eles mesmos se intitulam) recebeu esse nome em função da colonização Romana, logo, nada surpreendente que sejam meio latinos.
Români fete sunt bună companie, şi în limba nu este la fel de complicat.
quarta-feira, maio 27, 2009
O japonês, a canadense e o brasileiro dorminhoco
Hoje faço a apresentação.
A Mulher Objeto sugeriu que eu contasse essa passagem aqui no blog, para ilustrar as picardias dessa situação.
Num congresso internacional importantíssimo, com a presença de grandes acadêmicos de pesquisa dos principais países e empresas do setor, encontram-se na mesa plenária para apresentações um chinês, uma canadense, um japonês e um brasileiro (não é piada, ok ?).
É o primeiro painel do dia, 8h30 da manhã. Na noite anterior havia acontecido o Gala Dinner, um jantar elegantemente regado a vinho, que obviamente terminou bastante tarde.
O brasileiro foi o primeiro a apresentar. Sem problemas. A adrenalina cumpriu seu papel e a proverbial informalidade brasileira foi suficiente para manter a platéia acordada.
Termina educadamente aplaudido e entrega o posto para a canadense. Bonita, séria e com uma apresentação interessante.
O brasileiro, de volta à mesa, dá uma olhada na sequencia das demais apresentações do painel.
O chinês, um técnico fantástico, fará duas. Temas também interessantes mas complexos e, se o chinês fizer como de hábito, com muitas fórmulas e tabelas.
Depois dele, um japonês, que não fala inglês e, portanto, será secundado por sua tradutora pessoal (uma novidade no congresso).
O brasileiro logo imagina que vai ser difícil permanecer acordado, dado seu histórico desde os tempos de faculdade. Apropria-se imediatamente de dois potes de balas de goma que estavam sobre a mesa dos palestrantes, preparado para comer compulsivamente.
A canadense volta à mesa, devidamente aplaudida, e senta-se do lado do brasileiro.
O brasileiro lhe pede, como favor, que a canadense lhe dê um "cutucão" caso o flagre dormindo.
A canadense sorri e faz algum comentário sobre o senso de humor dos brasileiros.
O painel segue. O brasileiro resiste galhardamente à primeira apresentação do chinês, mas começa a fraquejar visivelmente na segunda. O primeiro pote de balas de goma já havia terminado e o segundo ia pela metade.
O chinês termina sua segunda apresentação.
O brasileiro relaxa um pouco o nó da gravata e bebe meia garrafa de água. Discretamente, molha o dedo no copo e leva aos olhos, como se estivesse com um sisco.
Começa a apresentação do japonês. Voz baixa, fala lerda. A cada parágrafo se interrompe para que a tradutora, com forte sotaque japonês, faça a tradução igualmente lenta e monocórdica.
A canadense, distraidamente, olha para o lado para comentar algo e percebe que o brasileiro apagou.
Cutucão master. O brasileiro levanta a cabeça assustado e dá de cara com os olhos arregalados da canadense. Agradece e pede que ela alcance um terceiro pote de balas de goma que está na ponta da mesa.
Permanece acordado, heroicamente, até o final.
Terminado o painel, desce do palco e encontra um amigo com quem comenta a sorte da canadense haver percebido sua cochilada.
O amigo, algo constrangido, informa que ela levou muiiiito tempo para perceber.
Acontece !!!
(ps - mesmo assim fui convidado para o congresso seguinte)
A Mulher Objeto sugeriu que eu contasse essa passagem aqui no blog, para ilustrar as picardias dessa situação.
Num congresso internacional importantíssimo, com a presença de grandes acadêmicos de pesquisa dos principais países e empresas do setor, encontram-se na mesa plenária para apresentações um chinês, uma canadense, um japonês e um brasileiro (não é piada, ok ?).
É o primeiro painel do dia, 8h30 da manhã. Na noite anterior havia acontecido o Gala Dinner, um jantar elegantemente regado a vinho, que obviamente terminou bastante tarde.
O brasileiro foi o primeiro a apresentar. Sem problemas. A adrenalina cumpriu seu papel e a proverbial informalidade brasileira foi suficiente para manter a platéia acordada.
Termina educadamente aplaudido e entrega o posto para a canadense. Bonita, séria e com uma apresentação interessante.
O brasileiro, de volta à mesa, dá uma olhada na sequencia das demais apresentações do painel.
O chinês, um técnico fantástico, fará duas. Temas também interessantes mas complexos e, se o chinês fizer como de hábito, com muitas fórmulas e tabelas.
Depois dele, um japonês, que não fala inglês e, portanto, será secundado por sua tradutora pessoal (uma novidade no congresso).
O brasileiro logo imagina que vai ser difícil permanecer acordado, dado seu histórico desde os tempos de faculdade. Apropria-se imediatamente de dois potes de balas de goma que estavam sobre a mesa dos palestrantes, preparado para comer compulsivamente.
A canadense volta à mesa, devidamente aplaudida, e senta-se do lado do brasileiro.
O brasileiro lhe pede, como favor, que a canadense lhe dê um "cutucão" caso o flagre dormindo.
A canadense sorri e faz algum comentário sobre o senso de humor dos brasileiros.
O painel segue. O brasileiro resiste galhardamente à primeira apresentação do chinês, mas começa a fraquejar visivelmente na segunda. O primeiro pote de balas de goma já havia terminado e o segundo ia pela metade.
O chinês termina sua segunda apresentação.
O brasileiro relaxa um pouco o nó da gravata e bebe meia garrafa de água. Discretamente, molha o dedo no copo e leva aos olhos, como se estivesse com um sisco.
Começa a apresentação do japonês. Voz baixa, fala lerda. A cada parágrafo se interrompe para que a tradutora, com forte sotaque japonês, faça a tradução igualmente lenta e monocórdica.
A canadense, distraidamente, olha para o lado para comentar algo e percebe que o brasileiro apagou.
Cutucão master. O brasileiro levanta a cabeça assustado e dá de cara com os olhos arregalados da canadense. Agradece e pede que ela alcance um terceiro pote de balas de goma que está na ponta da mesa.
Permanece acordado, heroicamente, até o final.
Terminado o painel, desce do palco e encontra um amigo com quem comenta a sorte da canadense haver percebido sua cochilada.
O amigo, algo constrangido, informa que ela levou muiiiito tempo para perceber.
Acontece !!!
(ps - mesmo assim fui convidado para o congresso seguinte)
Missão Cumprida 1
Dois minutos
Veja que coincidência ... encontrei o Luiz (do Vestiário Masculino) passeando por Las Ramblas aqui em Barcelona. A namorada de turno havia lhe pedido dois minutos para dar uma olhadinha numa loja de cosméticos e ele encontrou um jeito de matar o tempo. Vale conferir lá no Vestiário.
Paranóia

Mesmo cansado, não pude deixar de observar os cogumelos voadores na recepção do hotel. Seriam radioativos ? Esse seria o virus da tal gripe suína ?
A paranóia consume parte de meus recursos intelectuais e a conversa com a recepcionista holandesa, em espanhol, faria Dali sorrir cofiando os bigodes.
Desvio cautelosamente dos cogumelos virais e dirijo-me aos elevadores.
Preciso do código. A recepcionista holandesa não me deu o código. Prefiro não tentar a sorte com os cogumelos novamente e tento adivinhar a combinação., começando pelo número do apartamento.
Não funciona.
Uma jovem espanhola pergunta o que estou fazendo ali ?
Respondo com um olhar de desconfiança ... ela sorri e aponta um outro grupo de elevadores que eu havia ignorado pela influência dos cogumelos.
Entro rápido e chego ao meu andar sem maiores problemas.
Mentalmente, anoto o nome da espanhola ... Madalena. Ela, certamente, não é um deles ...
Letargia

Dezessete horas após deixar minha confortável residência, já no vôo Lisboa-Barcelona, os neurônios não são mais os mesmos.
Divagações viram sonhos que voltam a ser divagações. A aeromoça surge em meio à neve me oferecendo um suco. Eu respondo assustado: "goiaba, aqui ?" Ela me olha com piedade e se afasta ...
Em trânsito
Outras leituras

Uma das diversões de viagens internacionais é a leitura de jornais de outras paragens.
No Le Monde, uma nota explicando as consequências da eliminação de sua página mortuária.
Os mortos franceses estão, agora, distribuidos em suas páginas específicas. Escritores falecidos no caderno de Cultura, jogadores no de esportes, políticos no de Política e assim por diante.
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