
Certa vez um sócio de uma grande empresa me disse, indignado, que não entendia porque precisava pagar um prêmio por um sujeito ter feito aquilo que ele era pago para fazer.
Ele se referia à bonificação que os executivos recebem quando atingem suas metas.
Na sua opinião, os executivos já recebiam um salário e deveriam ser penalizados caso não alcançassem os objetivos.
Eu expliquei que era exatamente isso que ocorria.
A remuneração de um executivo é composta, hoje em dia, por uma parte fixa e outra variável em função de seu desempenho. Se ele não consegue atingir suas metas, recebe menos do que poderia receber se tivesse atingido ou superado.
O sócio ficou mais tranqüilo com a explicação. Pareceu mais razoável sob esse ponto de vista.
Adotar uma política de remuneração para executivos com uma parcela fixa e outra variável é uma pratica bastante comum nas médias e grandes empresas e se baseia no mesmo princípio das comissões oferecidas para os vendedores: motivação.
Qualquer profissional responsável é automotivado para cumprir suas obrigações. Mas, convenhamos, se tiver um ganho adicional por isso (ou deixar de ganhar se não o fizer) tenderá a esforçar-se mais.
Mas como meu avô costumava dizer quando criticava o casamento, a maioria das idéias boas se perde na implementação.
Evocando uma cena cotidiana, vamos a um restaurante e, com freqüência, deixamos uma “caixinha” (gratificação) para o garçon. Nada mais comum.
Isto tem uma certa eficiência se você costuma retornar ao local com freqüência e a gratificação é suficientemente generosa para que o garçon se lembre de você.
Mas vamos tomar a situação de uma visita única ao restaurante.
Deixar uma caixinha ao partir, se você não pretende voltar tão cedo, é um desperdício de dinheiro. Não vai garantir um melhor atendimento, já que o garçon terminou o seu serviço.
Deixar uma caixinha logo na entrada é um pouco mais eficiente. Mas lembre-se de que o garçon não ganhará nada a mais por atendê-lo melhor. Você já pagou por isso.
O procedimento mais eficiente seria chamar o garçon e dizer que pretende recompensá-lo pelo bom atendimento ao final da refeição. Como prova da seriedade de sua intenção, poderia antecipar, digamos, uns 30% da caixinha, informando que os outros 70% dependerão de seu desempenho. E, se quiser melhora, explique para ele que critérios vai utilizar nessa avaliação (gentileza, agilidade no atendimento, boas sugestões). Você estará estabelecendo um contrato, estipulando o valor do serviço e pagando contra entrega.
Isso funciona.
Curiosamente, acontece com freqüência, mesmo em grandes empresas, que a remuneração variável seja tratada como a caixinha do garçon.
O funcionário sabe que tem chance de ganhar alguma coisa adicional se trabalhar bem, mas não sabe exatamente quanto vai ganhar e/ou o que deve fazer para merecer o prêmio. E, ainda pior, tudo vai depender do humor do empregador no final do ano.
Claro que essa prática costuma estar vestida de terno e gravata.
Um dos casos mais comuns é a contratação de metas inatingíveis, porém negociáveis no final do ano. Estipula-se uma meta de 100 milhões para o faturamento sabendo que, num cenário otimista, chega-se a 90 milhões.
Isso garante um certo poder para o gestor na relação com o subordinado. O pagamento da remuneração variável passa a depender da tolerância ou da boa vontade dele. Virou “caixinha”.
Outro caso similar é a definição de metas vagas como “melhorar o desempenho da equipe” ou “aprimorar o produto”. Se não existem indicadores adequados para mensuração da performance, a avaliação final do resultado será subjetiva. Virou “caixinha”.
Também é comum, tal qual em alguns restaurantes menos requintados, que o executivo peça uma caixinha. Algo do tipo, “considerando o desempenho excepcional de nossa equipe na superação de todas as expectativas, acredito que o estabelecimento de um prêmio como reconhecimento dos acionistas a essa performance seria altamente motivador para o time”. Pediu “caixinha”.
A grande diferença é que a caixinha dos executivos costuma ser bem maior do que a dos garçons.
(foto: de uma postagens sobre "caixinha" em aviões, so blog Simpliflying)