Páginas

domingo, março 31, 2013

O Sexo dos Anjos - Capítulo 10


Capítulo  1 - Conjuratio
Capítulo  2 - Tons e Cores
Capítulo  3 - Cherchez la femme
Capítulo  4 - Deuses primordiais
Capítulo  5 - Serpente
Capítulo  6 - O despertar
Capítulo  7 - Ascenção
Capítulo  8 - Amor Eterno
Capitulo  9 - Um anjo se prepara

Capítulo 10 -  Anima Mundi


Eros estava de volta à sala do templo primordial de onde, ipso facto, nunca havia saído.  Digamos que sua atenção estava depositada naquele local.
Se não é fácil compreender a atemporalidade, mais difícil ainda é conviver com ela.
Os humanos utilizam a linearidade do tempo para se acostumar com as situações. 
Para Eros, temporalmente onipresente, não existe o “passar do tempo”.  Tudo acontece simultaneamente, da origem do Universo até o seu final.
Sua atenção é o que define o “momento presente”. 
Boa parte da “má fama” de Eros em todas as épocas se devia ao fato de utilizar a energia sexual para capturar sua atenção e fixa-la num momento de seu interesse.  Fixar a atenção sem uma âncora externa é um exercício que exige disciplina.  E entre a disciplina e o prazer, Eros preferia o segundo.
A conversa com Gabriel acontecia ao mesmo tempo em que Eros vivia seus desdobramentos no tempo linear e também todos os eventos anteriores a esse momento.
E o mais intrigante é que cada ação em cada instante do tempo linear, modifica a realidade do instante seguinte, de forma que Eros “existia” simultaneamente em cenários permanentemente mutantes.
Em situações normais Eros simplesmente ignorava essa particularidade de sua existência.  Apenas vivia e deixava viver.
Mas considerando que sua própria existência estava ameaçada, Eros precisava agir de forma planejada. 
Organizar os acontecimentos no tempo linear de forma a inspirar Gabriel a construir os registros “acásicos” para poder acessá-los foi, sem dúvida, um golpe de mestre.  Com isso, Eros podia avaliar mais facilmente as possíveis “realidades” que se colapsariam em decorrência de suas ações.
Ele não era capaz de ler os pensamentos de Gabriel, mas conhecia os possíveis “futuros” decorrentes de sua concordância com os planos do anjo. 
Vislumbrava Gabriel, livre de suas obrigações como CEO do seu céu, visitando Sheila e Bianca  acompanhado de Celeste, promovendo orgias sensoriais. 
Observava a relutância de Celeste, doutrinada pelos padrões celestiais de conduta e pouco acostumada à nova versão libertina de seu companheiro de asas.
Bianca fundaria uma nova seita fundamentada no prazer e Gabriel faria aparições pirotécnicas durante as festividades orgásticas, embaladas pelo consumo contínuo de uma infusão de “salvia divinorum”. 
Sheila, sentindo-se abandonada e incapaz de aceitar a universalidade do amor de Bianca, morreria de overdose.
Os fundamentalistas evangélicos iniciariam uma guerra santa contra os “novos hedonistas” da seita de Bianca.
A igreja católica, cujo “número um” eleito de acordo com os planos de Gabriel passaria a defender o sincretismo religioso como forma de sobrevivência, se omitiria da disputa, acolhendo os fiéis decepcionados de ambos os lados.
O céu de Gabriel, sem sua liderança e enfraquecido pela liberalidade religiosa de seus “fiéis” desmoronaria e seria loteado pelos fundamentalistas, mas o anjo já  estaria acomodado em um agradável recanto intermediário reservado aos deuses das seitas menores, uma espécie de “roteiro do charme” do espaço divinal.
Ou seja, Gabriel conquistaria o que desejava.  Deixaria a desgastante posição de CEO de uma grande corporação celestial para ser dono de seu próprio pedaço de céu, sem ter que se submeter às aborrecidas políticas e zelar pelo cumprimento de normas coercitivas de conduta.  Sua religião teria apenas um mandamento: o prazer.
Mais difícil para Eros era avaliar se seu próprio objetivo seria atingido: revitalizar a “anima mundi”, a alma do mundo.
Em sua condição de existência eterna e atemporal,  Eros havia reconhecido que todo o Universo era animado por uma única força vital.
Alguns humanos, dedicados a pensar sobre a existência em diversas épocas, já haviam chegado a essa mesma conclusão por meio da razão.  Hindus, taoistas e estóicos, com abordagens distintas, professaram essa verdade.
Mas Eros era capaz de sentir essa força e sabia que sua existência era decorrente da reverberação dela pelos seres vivos.
Sabia que a realidade da qual sua existência fazia parte era construída pelos viventes, prioritariamente os humanos, que se apropriavam da anima mundi para construção da realidade de acordo com suas estruturas mentais.
Precisava focalizar sua atenção nessa energia e sentir sua oscilação.
E isso exigiria um colossal esforço de disciplinada concentração ou, pensou sorrindo, de Gaia.
- Nada me deixa mais presente do que fecundar a Terra .... – disse para si mesmo enquanto saltava no tempo para os braços da deusa.

sábado, janeiro 26, 2013

O Sexo dos Anjos - Capítulo 8



Capítulo  1 - Conjuratio
Capítulo  2 - Tons e Cores
Capítulo  3 - Cherchez la femme
Capítulo  4 - Deuses primordiais
Capítulo  5 - Serpente
Capítulo  6 - O despertar
Capítulo  7 - Ascenção


Capítulo 8 -  Amor eterno



A relação entre os Deuses Primordiais nunca foi cordial e pacífica.
Embora as vezes possa parecer, essa não é uma questão relacionada com disputas de poder ou grandes paixões.
A verdade é que até mesmo os Deuses percebem o Universo através de experiências sensoriais interpretadas de acordo com suas estruturas mentais
pré-existentes. 
Não poderia ser diferente, já que são criações humanas e refletem a sua natureza, ainda que de forma idealizada.
Na medida em que diferem em sua percepção do Universo, é fácil concluir a possibilidade de discordarem sobre a forma de interagir com ele é grande.
Esse é o verdadeiro fundamento da discórdia nos diversos panteões em todas as eras.
Khaos é fruto das paixões arrebatadoras.  Pura energia, intensa e desordenada, avassaladora e atemporal.  Khaos é a força que constrói e destrói sem razão.
Dessa energia surge Gaia, a beleza criativa que representa toda a vida em seu momento presente.
Mas também emerge o destrutivo Tártarus, que representa o assustador final da existência.
Khaos, Gaia e Tártarus nunca se deram conta da essência diferente de Eros.
Enquanto os três primeiros explicam a origem e os fundamentos do mundo, Eros é quem oferece um sentido para a existência.
Eros, de fato, é o único deus eterno. 
Gaia e Tártarus estão conectados ao momento presente.   Khaos é incapaz de perceber o tempo.
A natureza essencial de Eros oferece o privilégio de esparramar-se pelo tempo.
Os outros deuses, e certamente os humanos, não são capazes de compreender claramente esse conceito.
Eros foi criado a partir do amor, a única emoção capaz de sugerir aos humanos a sensação de eternidade.
Essa característica é a grande vantagem competitiva de Eros em relação aos outros primordiais e mesmo aos que vieram depois.  Eros está sempre presente, em todas as eras. 
A intensidade de sua presença eterna depende apenas do amor gerado num determinado instante e, por isso mesmo, Eros buscava uma forma indireta de interferir na era Cristã, onde o amor havia sido substituído pelo seu antagonista, o temor.
E essa não era sua primeira tentativa.  Eros já havia perdido a conta de quantas intervenções havia feito sem sucesso. 
O fato de nenhum outro deus ter consciência disso o divertia.  A história se reescrevia a cada investida de Eros e as alternativas só poderiam ser percebidas por quem tivesse acesso aos registros Acásicos. 
Mas, desta vez, o plano de Eros demandava ajuda, ainda que involuntária, para ser executado.
Como, nessa era, apenas a equipe do CEO (também chamada de turma do Céu) podia consultar os registros, Eros havia tomado providências para garantir que os registros fossem consultados, invadindo o sistema e enviando uma mensagem absurda para Gabriel.
Eros decidira usar a vantagem de ser cronologicamente onipresente de forma mais inteligente... e estava funcionando desta vez.

                             ----------------------- ∞ --------------------

Bianca e Sheila permaneciam abraçadas sobre a cama, num estado de amorosa letargia.
Sheila foi a primeira a sentir a presença e abrir os olhos.
-          -  Meu Deus ... – gritou assustada.
-           -  Quem é você ??? – arrematou Bianca, colocando-se á frente de Sheila e protegendo-a instintivamente.
A figura etérea que pairava diante delas limitou-se a sorrir.

sábado, janeiro 05, 2013

Cantadas


Nunca fui um adepto das "cantadas".
Na única vez em que me lembro de haver usado uma, construí uma história longa e bem elaborada para ganhar um beijo.  Deu certo ... mas creio que a garota já estava se perguntando quando é que eu iria parar de falar e partir para a ação.
Por curiosidade, andei pesquisando para ver se encontrava alguma cantada encantadora.
Não encontrei.
Mas juntei algumas que não envergonham os autores:


“Você é tão bonita que deixa meu lado feminino morrendo de inveja.”
“Seu celular também está no modo avião ?”
“Pode me dar um beijo na boca se eu estiver errado ... mas acho que já nos conhecemos.”
“E eu aqui, me sentindo uma formiga no açucareiro...”
“E o bom é que eu ainda tenho direito a mais dois desejos ....”
“Puxa .. você é muito mais bonita pessoalmente do que nos meus sonhos ... “
 “Esta ouvindo ? ... essa é a música do nosso primeiro beijo...”

quinta-feira, dezembro 27, 2012

O Sexo dos Anjos - Capítulo 6




Capítulo  1 - Conjuratio
Capítulo  2 - Tons e Cores
Capítulo  3 - Cherchez la femme
Capítulo  4 - Deuses primordiais
Capítulo  5 - Serpente



Capítulo 6 -  O despertar 


- Você não quer saber o que eu achei do livro ? – Bianca estava surpresa com o comentário de Sheila.
- Nãããã oooo ....
Sheila se divertia com a confusão da amiga, normalmente tão senhora de si.
- Eu quero que você me diga o que é que você sentiu enquanto lia.  Mas não tente me enrolar, porque eu já imagino.
Ali na cama, frente a frente com Sheila, com o corpo ainda vibrando após uma noite de sonhos intensos e eróticos dos quais não se lembrava, Bianca sentiu que ruborizava.  Seus glúteos contraíram involuntariamente e ela desviou os olhos para suas mãos.  Percebeu que estava, distraidamente, acariciando a parte interna das próprias coxas.
Uma energia diferente percorria seu corpo.  Não pode deixar de sorrir pelo trocadilho que sua mente, sempre muito verbal, lhe ofereceu: poderia ser um calafrio, não fosse o calor que sentia, nascendo em algum lugar próximo ao cóccix e subindo pela coluna até o topo da cabeça.
- Um calaquente .... – deixou escapar num sussurro.
- Quê ?
- Não sei se quero falar sobre isso agora, Sheila ... – Bianca se recompôs.
- Deixa de ser boba, Bianca.  É justamente agora, quando você está sentindo umas coisas estranhas, que precisamos conversar.
As imagens da noite de despedida voltaram, vívidas.  Num impulso, Bianca resolveu começar a falar, ainda com os olhos fixos em suas próprias mãos.
- Estou me lembrando da última noite que passamos juntas, antes da minha viagem....
Sheila respirou profundamente e suspirou, aliviada.  Não sabia se a amiga teria coragem de abordar o assunto e não queria força-la.
- Foi uma noite deliciosa, Bianca ... mas sei que deve tê-la deixado constrangida.
Bianca levantou lentamente a cabeça e sustentou o olhar da amiga.  Registrou, de passagem, a calcinha branca de algodão, exposta pelas pernas cruzadas sob o vestido curto.
- Fiquei um pouco ... mas tínhamos bebido muito e considerei que tinha sido apenas uma extrapolação de nossa afetividade.
- Que tal você deixar de lado suas racionalizações por um instante a aceitar que aquele momento foi único, inesperado e absolutamente incrível ? – o sorriso de Sheila era irresistível.
- Tá ... foi ... – Bianca voltou a olhar para suas mãos - ... não sei bem o que aconteceu e confesso que fiz força para me esquecer.  Mas agora que voltei e você me deu esse livro para ler ... – ela encarou Sheila enquanto terminava a frase - ... parece que foi ontem que isso aconteceu ... E o pior é que nem gostei do livro !
Sheila sorriu e tomou as mãos de Bianca entre as suas.
- Poderia ter te dado até uma bula de analgésico para você ler e o efeito teria sido o mesmo, Bianca.  Se você não fosse tão racional e tão distante de seus próprios sentimentos, já teria percebido que algo está acontecendo.  E é maior do que eu e você.  Naquela noite fomos “vítimas” de uma ressonância ... há uma vibração diferente no ar.  Alguma coisa na energia do Universo está mudando !
- Você sabe que eu não acredito nessas coisas, Sheila ...
- Você não precisa acreditar em nada, Bianca.  Apenas sentir.... feche os olhos !
- Para que?
- Confie em mim ... feche os olhos por um momento.  Mantenha o corpo relaxado e respire profundamente.  Eu vou me aproximar de você e quero que preste toda a atenção no que sentir ... só no que estiver sentindo ...
Enquanto falava, Sheila contornou Bianca e postou-se atrás dela, de joelhos sobre a cama.  Aproximou o corpo de suas costas e tocou o dorso de suas mãos com a ponta dos dedos, e foi subindo lenta e suavemente pelos braços, enquanto respirava exalando o ar pela boca em seu pescoço.
O corpo de Bianca tremeu e ela jogou a cabeça para trás, encostando-a no ombro direito de Sheila, emitindo um profundo suspiro.
Sheila se afastou delicadamente deitando-se na cama, apoiando sua cabeça sobre o braço, e perguntou, séria:
- O que foi que você sentiu, Bianca ?
- Difícil de descrever ... – Bianca não estava quase em transe - ... eu já estava sentindo isso antes quando você chegou e sentamos aqui na cama, mas foi muito mais intenso... uma coisa subindo pela espinha .. uma sensação forte ... como se fosse um arrepio de tesão, mas diferente ... mais intenso ...  E, ao mesmo tempo, um sentimento de ... de amor ... por você ... por nós ...  Nossa ! ... tão breve e tão intenso ! ... o que foi isso, Sheila ?
Sheila estava radiante.  Finalmente podia partilhar com a amiga sua descoberta.
- Não sei, Bianca ... mas é disso que estou falando.  Por alguma razão estamos mais predispostas a estímulos sensoriais e emocionais.  E estamos afetivamente mais disponíveis ..
- Isso quer dizer que estamos apaixonadas ? ... tipo lésbicas ou algo assim ??
A gargalhada de Sheila foi espontânea e contagiante.  Ela era muito sexualizada e não costumava fazer distinção de gênero quando se tratava de prazer.  Mas Bianca era absolutamente “conservadora” nessas questões e Sheila sabia que essa possibilidade, de se apaixonar romanticamente por outra mulher, não era exatamente “confortável”.
- Não, Bianca ... ou talvez sim ... mas isso, de verdade, não importa.  Você se permitiu vivenciar isso comigo e se entregou com facilidade porque já temos uma relação afetiva importante.  Mas essa sensação que você teve poderia ter sido provocada por qualquer pessoa, ou até por você mesma, desde que estivesse disponível e intencionada.   Não tem nada a ver comigo.  Essa coisa que eu chamo de energia e os orientais chamam de Kundalini ... mas que você pode chamar como achar melhor... vem de você mesma ...
- Como assim ? – Bianca estava aturdida.
- Olha ... – Sheila assumiu um ar sério - ... eu não sei bem o que está acontecendo.  Mas não é só com a gente.   Eu também fiquei impressionada com o que sentimos naquela noite.  Mas diferentemente de você, não deixei para lá.  Segui experimentando e mergulhando dentro de mim mesma tentando compreender... descobrir de onde vinham essas sensações tão intensas que faziam com que todas as outras coisas perdessem sua importância.
- E o que descobriu ?
- Pouco ... mas o suficiente para dizer que, seja lá o que for, é coletivo.  As pessoas sensorialmente mais abertas estão vivenciando isso também.  As mais fechadas, resistentes, andam reclamando cada vez mais da falta de sentido da vida ... achando tudo meio sem graça ... como se soubessem, inconscientemente, que estão perdendo alguma coisa importante.
Bianca não sabia o que dizer e Sheila continuou:
- Minha intuição me diz que alguma coisa está provocando isso ... é como se estivéssemos vivendo entorpecidas até agora, e alguém quisesse nos despertar.
Bianca deitou-se ao lado de Sheila e a abraçou.  Ambas permaneceram caladas, imersas em seus pensamentos.

---------------------- ∞ –––––––––––––––

Khaos, Tártarus e Gaia haviam passado os últimos momentos ouvindo Eros explicar os detalhes de sua façanha.
Até Tártarus, normalmente reservado e taciturno, estava radiante, emanando aquela estranha aura infra-vermelha, típica das noites de Vênus, seu planeta predileto.
- Eros ... você decididamente não é tão inútil quanto parece !
- Inútil, Eros ? – Gaia aproveitou para provocar Tártarus – olha quem fala....
- Essa sua idéia de trabalhar subliminarmente no Oriente enquanto o novato concentrava sua atenção no Ocidente foi estrategicamente brilhante, Eros.   Estou agradavelmente surpreso ! – Khaos era um amante da estratégia – Mas como é que você conseguiu a energia necessária para iniciar esse trabalho ?
- Peguei “emprestado”  ... – Eros parecia uma criança levada - ... o novato tem mania de organização e canaliza boa parte da energia que captura para manutenção de arquivos.
- Arquivos ??? Mas isso lá é coisa de um deus que se preze ?
- Pois é ... mas ainda bem que o novato não sabe lidar com lógica fuzzy.  Eu só tive o trabalho de estabelecer uma sincronia quântica com uma parte desse registro e desviar a energia residual para o início dos tempos.  Quando se derem conta, se é que darão, vão pensar que alguém está roubando informações.
- Informação ?  Mas quem precisa disso ? – Khaos estava se deleitando com o primitivismo do oponente.
- Eles precisam ... nós só precisamos da energia.  E a essa altura, já consegui desviar o suficiente para provocar a desestabilização da fonte geradora ...
- Mas o que significa isso ? – Gaia não estava conseguindo acompanhar a conversa.
- Significa que os humanos estão duvidando de sua fé, Gaia ... – a voz de Tártarus ecoou, nefasta, nas ruínas do palácio.

segunda-feira, dezembro 24, 2012

"O Sexo dos Anjos" - Cap. 4

Capítulo  1 - Conjuratio
Capítulo  2 - Tons e Cores
Capítulo  3 - Cherchez la femme

Capítulo 4 - Deuses primordiais


Naquilo que parecia ser um antigo palácio grego em ruínas, 4 vultos agitados sussurravam com estranha intensidade.
Uma enorme lua alaranjada iluminava a cena, ressaltando a beleza dos corpos envoltos por mantos de seda branca.
-      -  Não temos mais poder sobre os humanos, Tártarus ... nenhum poder ! – a tristeza parecia transbordar em densas ondas dos olhos negros de Khaos.
-       - Não seja otimista, K... o fato é que não temos mais poder nenhum sobre nada.  A prova disso é que Gaia já está ficando com pés-de-galinha. – Tártarus jamais perdoara Gaia por havê-lo trocado por Uranus.
-       -  Rugas de expressão, Abyss querido ... – Gaia sabia que Tártarus detestava esse apelido – Ao contrário de você, eu me preocupo...
-       - Estamos “preocupados” há séculos ! – o rouco sussurro de Khaos fez tremerem as deterioradas colunas do palácio – E, enquanto isso, aquele embusteiro sem nome e cercado de passarinhos faz o que bem entende.
-      -  Anjos, Khaos, anjos ... e você não pode negar que são bonitinhos ... – Eros era incapaz de odiar quem quer que fosse – Eu ando pensando seriamente em adotar um par de asas ... você acha que ficaria bem com elas, Gaia ?
-       - Você ficaria lindo até coberto de espinhos, Eros ... – Gaia sorriu, carinhosamente - ... e, lembre-se de que fui em que desenhei os pássaros.
-      -  Linda criatura e criadora apaixonada .... – Eros suspirou.
-       - Vamos parar com esse lambe-lambe ?!  Eu mandaria os dois para as profundezas dos meus domínios, se o embusteiro não tivesse entregue tudo para aquele chifrudo ridículo. - os dentes pontudos de Tártarus assustavam até mesmo os deuses primordiais.
Eros parecia particularmente relaxado naquela noite.  Acompanhava os rompantes de irritação de Khaos e Tártarus com um sorriso maroto, como se soubesse de algo e estivesse saboreando o momento antes de contar.
-       - Eu tenho boas notícias para vocês, irmãos de infortúnio.  Mas, primeiro, uma pergunta .... Lembram-se de como perdemos o poder ? – Eros decidira, finalmente, compartilhar as novidades.
-       - Não estou afins de lavar roupa suja de novo, Eros ... Já discutimos esse assunto exaustivamente nos últimos dois mil anos.  Abusamos, fomos descuidados e, por fim, delegamos demais.  Você bem nos avisou de que não seria uma boa ideia deixar tudo nas mãos de Zeus e sua equipe de jovens talentos.  Aquele bando de exibicionistas egocêntricos acabou complicando tudo e os humanos perderam a fé.   Presa fácil para o primeiro embusteiro que aparecesse. – Khaos sempre se referia ao novato como embusteiro.
-       - Esse é o ponto chave, Khaos ... perderam a fé.  E o poder dos deuses é alimentado exclusivamente pela fé humana.  Sem ela não somos nada.  E você lembra de nossos bons tempos ?  Lembra como foi que conquistamos a fé dos humanos ?
-       - Está querendo confete, Eros ? – Tártarus destilava seu mau-humor habitual.
-       - Não, Tártarus ... quero lembrar que conquistamos a fé dos humanos através do amor.  Gaia concebia as criaturas a partir da energia de Khaos, e eu inspirava o amor universal, o ágape.  E você, Tártarus, ia corrigindo nossos erros, banindo as criaturas que causavam a desarmonia.
-       - Ah.... que mundo lindo, aquele ... – foi a vez de Gaia suspirar, enlevada pela memória dos tempos do paraíso.
-       - E daí, Eros ?  Estamos cansados de saber disso. – os cabelos negros de Khaos esvoaçavam quando estava impaciente.
-       - E daí que o amor é a peça chave para a conquista e manutenção da fé.  Foi por isso que a equipe do Panteon se deu mal.  Zeus não amava ninguém, os outros deuses só queriam saber de tributos e aquele moleque, o filho da Afrodite que usava o meu nome, gostava mesmo é de uma boa suruba.
-       - Se arrependimento matasse ....  – Tártaro ruminou.
-       - Não mata, mas pode salvar .... hahaha ... – Eros não conseguiu evitar a piada sobre o discurso dos seguidores do novato.
-       - Eros, Eros ... – Gaia adorava deuses com bom humor.
-       - O fato é que esse novo deus aprendeu com nossos erros e vem mantendo seu poder centralizado, cuidando de tudo pessoalmente.  Mas isso é desgastante e, pelo que ouvi dizer, ele anda de péssimo humor não é de hoje.  Há tempos que não visita as criaturas que herdou de Gaia e nem manda um representante de peso para visita-las.  E não há ninguém encarregado de inspirar o amor por lá.  Está todo mundo sobrecarregado tentando cumprir ordens e manter o controle.  O resultado prático disso é que seu modelo centralizador e autoritário deixou-o completamente desconectado das bases.  Sem planejar, ele delegou a manutenção da fé aos próprios humanos.
-       - Hummmm .. vejam só que interessante ... – Tártarus sorria pela primeira vez em séculos.
-       - Resumindo, meus queridos, temos uma boa oportunidade para retomar o que nos pertence ! – os olhos azuis de Eros encontraram os verdes de Gaia e uma onda de energia nasceu dos dois, envolvendo Khaos e Tártarus.
––––––– ∞ –––––––

Bianca, sonolenta, abriu a porta do quarto para Sheila.
Eram 8h00 da manhã e ela havia passado boa parte da noite dedicada à leitura do livro.
Sheila, ao contrário, havia acordado cedo, ansiosa para conversar com a amiga.
-       - E então, Bi ?  Leu ?
-       - Uahhhh – Bianca não conseguiu segurar o bocejo – Lí sim ...
-       - E o que sentiu ?
-      -  Olha ... o livro não é lá essas coisas ...
-       - Isso até eu, que não sou tão exigente, sei bem .... Mas quero saber o que foi que você sentiu ...

Sheila tomou as mãos de Bianca e a levou até a cama.   As duas se sentaram frente a frente, de pernas cruzadas sobre o colchão.
-       - Me conta, Bi .. mas seja sincera.  É muito importante !  Preciso saber o que você sentiu ...