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sábado, janeiro 23, 2010

LEGÍTIMA DEFESA


Capítulo 1 - Prolegômenos
Capítulo 2 - Tocaia


Capítulo 3 - Papel Kraft

A verdade está nos detalhes.
Polansky acariciou o papel kraft. Gostava desse tipo de papel. Útil e despretencioso como todas as coisas deveriam ser.
Abriu o envelope e espalhou, metodicamente, o conteúdo sobre a mesa: cheque, fotos, dossiê e o cartão da loira.
- Amelie Adevarat .... - pronunciou em voz baixa, pensativo.
Polansky havia abandonado o curso de psicologia quando a coordenadora se recusara a aceitar sua tese sobre a correlação entre os nomes e as personalidades das pessoas.
Amelie era um nome discreto, suave e doce, quase ingênuo. Muitas vogais e apenas o "m" e o "l" como consoantes. Quase impossível pronunciar uma palavra assim de forma ríspida, o que significa que a proprietária do nome fica habituada a ser chamada com delicadeza.
Adevarat, por outro lado, é forte e incisivo. A sequencia formada pelo "d", o "v", o "r" e o "t" tem a força de uma avalanche. O "t" marca o final. Um golpe intenso, rápido e preciso.
Nome e sobrenome armônicos e começando com a mesma letra sugerem senso estético e visão de conjunto. Seus pais, muito provavelmente, eram pessoas inteligentes. Ou pelo menos um deles.
Tudo combinava com a primeira impressão causada pela cliente em potencial, sensual, assertiva e objetiva.
- Todo cuidado é pouco ... - pensou, lembrando das covinhas nos joelhos.
Voltou-se para a foto. Um homem de aproximadamente 40 anos, terno bem cortado embora o modelo fosse um pouco ultrapassado, abotoadura e prendedor de gravatas provavelmente de ouro, e a ponta do lenço cuidadosamente dobrado surgindo do bolso do paletó. Traços delicados, nariz estreito, olhos levemente amendoados e mais próximos do que deveriam. Lábios finos.
- Requintado, conservador e cruel. - concluiu rapidamente.
Dedicou a hora seguinte à leitura do dossiê, elegantemente impresso. A escolha da letra, Bookman Old Style, e a justificação do texto indicavam que não tinha sido finalizado por Amelie.
Quando terminou a leitura, Polansky sabia que havia sido fisgado.
O documento descrevia, com riqueza de detalhes, uma série de assassinatos cometidos pelo homem da foto, todos em legítima defesa. Nove pessoas, aparentemente sem nenhuma relação entre elas, haviam ameaçado sua vida em situações inusitadas e, consequentemente, ele havia sido forçado a matá-las para se defender. Por mais iverossímil que pudesse parecer o conjunto da obra, cada um dos episódios era de uma consistência inatacável. O assassino sempre saia impune.
Sua sensual cliente propunha um desafio: encontrar provas de que os assassinatos haviam sido premeditados.
Polansky acendeu um cigarro. O primeiro do dia.
- Encontar a verdade ... - disse para sí mesmo, absorto, enquanto soltava a fumaça em direção ao ventilador do teto.
Polansky sorriu com um brilho estranho no olhar e chamou seu assistente.
- Bertran !
Da porta, Bertran reconheceu o olhar do chefe. Seu salário estava garantido.

6 comentários:

Eutímicas disse...

Muito legal! Adorei.

Sentimental ♥ disse...

eu não quero ameaçar a vida dele, de jeito nenhum...

Anne M. Moor disse...

E continua... :-)

Bjos
Anne

Carla P.S. disse...

Adoro!
Esse carinha me lembra o Sherlock Holmes, ja assisiu o filme:: (nao sei cade o ponto de int.).
Adoro o mundo das letras e dos pensamentos.
Beijos.

Mary disse...

Adoreio o post....aliás, adoro escrever e pretendo abrir mum blog para fazer post como este. Você ma juda nas estórias?...kkkk....ah, não sei o que é breque.

Bjs

Mary disse...

quis dizer beque...deculpa-me pelas distrações no comentário anterior. Estava sem os óculos...rs