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segunda-feira, março 20, 2006

Interrupções Ininterruptas


Numa interessante matéria da Revista Época sobre as implicações das novas tecnologias, encontrei a feliz expressão que coloco no título desta postagem.
De fato, somos ininterruptamente interrompidos em nossas atividades cotidianas, por celulares, e-mails, alertas de notícias (no browser), torpedos, telemarketing, estímulos visuais e auditivos diversos (mídia exterior e ponto de venda), interações pessoais (em casa, no escritório, nos semáforos), etc., etc..
O jornalista (ou articulista) menciona, ainda, que o volume de informações que recebemos hoje é significativamente superior ao de antigamente, comentando que uma única edição de um grande jornal de hoje traz mais informação do que um indivíduo médio receberia durante toda sua vida em épocas mais remotas.
Pessoalmente, tenho um outro olhar para essa situação, que gostaria de compartilhar com os leitores do Arguta.
Creio que o ser humano, em qualquer época, recebe informações continuamente através dos seus “sentidos” – os tradicionais visão, audição, tato, paladar e olfato, e os demais sentidos não catalogados genericamente agrupados como “sexto sentido” (material para uma posterior postagem).
O volume de informações recebido é determinado pela capacidade de captação do indivíduo e, salvo em situações limite, independe das fontes geradoras.
Explicando melhor, o mundo (exterior e interior) sempre nos ofereceu estímulos em infinita quantidade e, quer estejamos atentos ou não, nossos sentidos captam continuamente esses estímulos.
Podemos aceitar que um jornal impresso de hoje traz, realmente, mais informação de um determinado tipo (“jornalística”) do que um indivíduo receberia durante toda sua vida há 500 anos.
Mas, na prática, estamos adicionando apenas mais um grão de areia à praia de Copacabana.
Defendo que, até que cheguemos ao “momento Matrix” da informação, quando o conhecimento puder ser injetado sob pressão, elétrica ou quimicamente, diretamente em nosso cérebro, a quantidade de informação acessível não varia com a oferta, porque esta já é infinita.
O que muda é o perfil da atenção, influenciada pelo nível de estimulação a que somos submetidos.
Ou seja, ao sermos impactados pelo conteúdo de um jornal, de um podcast, de um programa de rádio ou de televisão, que momentaneamente pode estimular nossa atenção com maior intensidade do que o perfume de uma flor, o trinar dos rouxinóis, o brilho intermitente de uma estrela ou o sorriso de uma criança, podemos ficar com a (falsa) impressão de que, naquele momento, estamos recebendo um volume maior de informação.
Na verdade, as outras informações seguem sendo captadas por nossos sentidos e, ainda que nossa atenção intencional não esteja voltada para isso, também estarão sendo processadas em nossa mente, mesmo que de forma inconsciente.
Deixo a conclusão por conta dos leitores, que convido a comentar e debater o assunto neste espaço.

5 comentários:

doppiafila disse...

Oi Flavio,

estou parcialmente de acordo com o ponto central do seu post (pelo menos como eu o entendi): nao nos preocupemos com excesso de informacao, pois isto nao è novidade - o ùnico aspecto novo è o tipo de informacao à qual estamos tendo exposicao.
O "parcialmente" se xplica pelo siguinte: a mayoria dos "novos" estimulos (email e celular na cabeca) requerem uma reacao consciente nossa, coisa em que diferem da observacao da natureza que "enchia" nossos sentidos faz 200 anos! Esta diferenca faz com que a "vida moderna" seja sempre mais parecida a um serial na televisao: ritmo ràpido, emocoes abundantes, sorpresas antes de cada comercial e... sempre mais superificialidade, pois estamos distraidos demais para enfrentar um discurso "de longo prazo"...
Um abraxo, Doppiafila

Flavio Ferrari disse...

Olá Paolo,

Concordo com sua colocação. O ritmo, hoje, é outro.
E, também é bom lembrar, nunca se produziu tanta informação para consumo tão profundamente superficial.
Um artigo que lí outro dia comentava uma pesquisa realizada na Inglaterra cuja conclusão era a de que a relação superficial com a informação estaria contribuindo para reduzir o QI (quociente de inteligência) médio da população.
Nunca tantos souberam tão pouco sobre tanta coisa ...

Alberto A V Alves disse...

Tendo a concordar com meus interlocutores em tudo, porém acredito também que o aprofundamento do conhecimento sobre um determinado tipo de informação irá depender do "ser" que com ela se deparar. Nenhum "ser" tem a capacidade de se concentrar, por muito tempo, em algo de que não goste ou tenha algum tipo de afinidade. Assim, embora os meios de comunicação produzam estímulos diversos e um volume incalculavel de informação estes serão captados por grupos definidos pelo tipo (segmentação)de informação. Ser "generalista" ou "dedicado" depende exclusivamente do perfil psicológico de cada "Ser".
Então que tenhamos cada vez mais a produção de Informação e de todo tipo,pois sempre existirá "Aquele" que fará o melhor uso da mesma. Nos resta agora saber onde devemos investir nossos recursos e isto está intimamente ligado ao que desejamos para o futuro, nosso, da nossa família, da nossa sociedade, da nossa cidade, do nosso país, do nosso mundo...

Seja benvinda toda a informação possível...

É! disse...

fuçando...
(há muita coisa boa por aqui aida pra ser lida...)
E tem gente que acha que estar navegando pela internet em busca das informações que lhe apetecem naquela hora é estar "fazendo nada"... Quem não está fazendo nada são eles, que ficam se preocupando em criticar sem acrescentar NADA a ninguém, muito menos à sua cultura...
Ai, as regras...

É! disse...

aiNNNda