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quarta-feira, abril 12, 2006

Visão de Mundo: repertório e interpretação


Condensando todo um capítulo do livro Leviatã, de Thomas Hobbes, publicado em 1651, traduzo aqui em 2 parágrafos sua visão sobre os sentidos e, em particular, a visão:
“Nossas sensações são causadas pela ação de um corpo externo diretamente sobre o órgão próprio de cada sentido.
Se as cores estivessem nos objetos não poderiam ser separadas deles, como acontece nos espelhos. Assim, é evidente que a coisa vista está em uma parte e a aparência em outra. Uma coisa é o objeto; outra é a imagem ou a fantasia que produzimos como reação à pressão de sua “parte visível” em nossos olhos.”
Hobbes defendeu esse conceito numa época em que a biologia e a física ainda não haviam reunido conhecimento suficiente para bem explicar o funcionamento da visão. É uma interpretação lógica do fenômeno, baseada em seu repertório.
E nós iremos interpretar a explicação de Hobbes segundo o nosso repertório atual.
A primeira sensação que a explicação desperta é a de que Hobbes, por falta de conhecimento específico, estava sendo ingênuo em sua explicação, aparentemente despropositada.
Essa idéia de que o objeto tem uma “parte visível”, dele dissociada, e que é essa parte visível que, deixando o objeto, entra em contato direto com nossos olhos parece, no mínimo, despropositada.
Mas fato é que segundo a física e a biologia modernas a visualização de um objeto se dá quando nossos olhos são capazes de captar refletida por ele. Ou seja, não estamos “vendo” realmente o objeto, mas sim, estamos reagindo ao contado da luz refletida sobre nossa retina.
Em síntese, Hobbes tinha razão.
Recomendo a leitura do livro de Hobbes.
Em Leviatã Hobbes descreve seu ideal de funcionamento da sociedade, partindo de seu principal elemento constituinte, o ser humano.
Acreditava que seria impossível conceber um sistema de governo adequado sem conhecer o funcionamento do ser humano em profundidade e aceitá-lo como premissa.
Independentemente da visão política e social de Hobbes, me parece que também aí ele estava coberto de razão.
E chamo a atenção para esse ponto porque, muitas vezes, os gestores de empresas parecem se esquecer de que seu principal elemento constituinte também é o ser humano.
Como já comentei em um post anterior, no fim, tudo é mesmo pessoal. Principalmente as interpretações.