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terça-feira, fevereiro 27, 2007

Pecado e Capital


Essa história começa em outra dimensão.
O primeiro (e interessantíssimo) capítulo está no Assertiva e sua leitura é condição “sem a qual não” se pode prosseguir na leitura. Suspeito que o terceiro capítulo também estará por lá em breve ...

Parte 2 – A Terra

Jailton estava preocupado.
Havia noites não dormia bem. Justo ele, quase um narcoléptico.
Tudo começou numa madrugada em que acordou com a sensação de estar sendo sufocado por um monte de penas.
Prontamente substituiu seu travesseiro de plumas de ganso, presente de uma amiga que dizia adorar as pequenas coisas simples da vida como lençóis de algodão egípcio e manteiga francesa, pelo outro que costumava acomodar entre as pernas (um velho truque índio para dores de coluna).
Não adiantou.
Na noite seguinte voltou a acordar sobressaltado, em meio a um pesadelo onde chafurdava entre longas penas brancas tentando encontrar um cilindro composto por anéis numerados.
- É a porra do orçamento ! – pensou. Ou o chopp da Skin ...
Prometeu a si mesmo que assumiria o estouro do orçamento e que, se não houvesse outra alternativa etílica, ficaria no guaraná diet. Voltou a dormir.
Quase havia esquecido do assunto quando, algumas noites depois, as penas voltaram, desta vez em movimento. E, no meio delas, um rosto desconhecido, mas vagamente familiar, coroado por loiros e desgrenhados cabelos.
A duras penas (e foi essa a expressão que utilizou quando contou o caso para a Estela no dia seguinte), procurou se lembrar do que dizia o personagem. Não conseguiu.
E nem precisou, pois o loiro com cara de arcanjo voltou na noite posterior.
- Você foi o escolhido, Jailton... – ressoou uma voz que parecia produzida no Adobe Audition com eco do tipo “empty parking garage”.
Desta vez Jailton acordou a contragosto, antes de conseguir perguntar do que se tratava.
Mas isso não era tudo.
Tão agnóstico quanto o avô paterno do Aldous Huxley (Sir Thomas, inventor da expressão), Jailton teve que reunir todas as suas forças para resistir á súbita compulsão de comprar um crucifixo numa joalheria próxima ao escritório. Afastou-se da loja, assustado, e caminhou a esmo por alguns quarteirões. Quando deu por si estava sentado no banco de uma igreja.
Eram quase cinco da tarde, e a luz do sol poente atravessava os vitrais da nave refletindo nas partículas de poeira suspensas.
Se estivesse em seu estado normal, Jailton faria uma rápida conexão mental com as obras do metrô mas, não ... Ficou ali, estaticamente hipnotizado pelo movimento dos pequenos pontos luminosos, e embevecido pela terna sensação de acolhimento daquela luminosidade quase celestial.
Despertou do transe ao som dos sinos, que chamavam para a missa.
Atordoado, levantou-se, assistiu sua mão direita com inusitada autonomia ensaiar o sinal da cruz e retirou-se, dirigindo-se apressado e algo cambaleante para o escritório.
- Jailton ... o que houve ? – perguntou Dona Constância logo á sua chegada. Você está pálido ... E sumiu a tarde toda sem avisar ... Está passando bem ?
Ele acenou com a cabeça e fez um gesto de quem não queria conversa. E se havia alguém que consegui impor respeito naquele escritório era o Jailton, quando não queria conversa.
Chegou até sua mesa sem mais interrupções.
Ligou o computador disposto a trabalhar no orçamento, evitando pensar no que havia acontecido.
Clicou no ícone do Excel mas, inexplicavelmente, foi o Powerpoint que abriu, ao som de um grupo de trombetas em um arranjo épico.

4 comentários:

Anônimo disse...

(2)-cioso,bilateralmen...
Lú.

Udi disse...

Genial e delicioso!(economizando palavras para que eu possa comentar também no Assertiva)
Mas... narcoléptico?

Ti disse...

Será que não tem um departamento de pesquisas no Céu?

Esqueceram de dizer que a amostragem é fundamental para este tipo de pesquisa!! Sorte que buscaram um caso que consegue representar 3 perfis distintos de pessoas... Mesmo assim, o resultado será prejudicado, já que o Jailton é um caso raro!!!

Anne disse...

Imagino o susto do Jailton com a reação aparentemente fora de controle ... :-)