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quinta-feira, junho 14, 2007

Os Ovos do Dragão

Parte 1 - O início do fim
Parte 2 - Separação
Parte 4 - Vigília
Parte 5 - O Anel
Parte 6 - Sublimação






Parte 9 – Intenções Imperfeitas

Barceló, Maurice, Marie, Isabela, Adric, Fernando ..., inevitavelmente unidos por um projeto comum ... eu disse comum ?
Bem, seria um projeto incomum, no sentido laico da palavra, já que cerimônias místicas não fazem parte do repertório protocolar de uma família cristã, optante por outras liturgias menos desafiadoras dos “bons costumes”, embora, talvez, mais desafiadoras da razão.
Mas poderia ser considerado um projeto comum a eles, estrito senso, já que todos estão empenhados em realizar a cerimônia evocada por Barceló, segundo um compromisso assumido ainda nos tempos da Fraternidade.
Ah ... mas o Diabo, mal humorado com o par de chifres que lhe puseram, mora nas intenções.
Badaró diz que quer realizar um ritual de rejuvenescimento e, para isso, precisa de Isabela, que não tinha qualquer propósito senão o de ganhar o pão de cada dia trabalhando para ele. Maurice pretende cumprir o combinado com Badaró, e para isso conta com a ajuda de Marie e Adric (que estão aí só para ajudar) e com o inesperado testemunho de Fernando que, pobrezinho, pretendia apenas publicar suas descobertas sobre um certo desenho.
E acima de tudo isso, paira uma aura mística, evocada pelos “fratelli” e seus nepotes, que confere um significado melodramático a cada pequeno gesto ou olhar, o que é fundamental para que se chegue ao “mind setting” adequado para mobilizar as energias do mundo invisível.
Tudo perfeito ... menos as intenções.
Porque é tão importante para Barceló rejuvenescer ?
Maurice, que aparentemente tem uma relação mais intensa e profunda com temas esotéricos, quer apenas ajudar o amigo ou planeja algo mais ?
Isabela é uma inocente útil, a serviço dos interesses de Barceló, ou seria o contrário ?
E Marie, que acompanha Maurice com incansável admiração à mais de uma década, não teria, ela mesma, um projeto pessoal ?
Adric, o aprendiz recrutado por Maurice, de fisionomia taciturna e passado hermético, que mistérios esconderia ?
O que pretendia Fernando quando deixou “vazar” a informação sobre seu trabalho com a imagem sagrada, atraindo a atenção de Maurice ?
Meus caros, nada é o que parece, não que isso importe.

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Nada mais hipnótico do que o ondular dos quadris de uma mulher nua subindo vagarosamente as escadas, ou pelo menos esse era o pensamento de Fernando, que já não sabia identificar quem estava vestida ou não.
Ele sabia que Maurice estava preparando algum tipo de armadilha, mas não podia negar que, pelo menos, a coisa estava interessante.
Fernando tinha uma particular queda pelo nu feminino, particularmente quando praticado de forma natural, quase animal, como no caso de Marie.
E parecia o único ali nessas condições. Os demais encaravam tudo com uma traquilidade inquietante.
- Uma mulher pode estar mais nua quando vestida, Fernando ... – Adric comentou de forma jocosa, trocando um olhar maroto com Isabela.
- Vamos todos almoçar, meus caros. Precisamos de energia para a noite. – Maurice, com suave autoridade, convocou todos para a mesa.

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Embora o ritual só fosse acontecer na noite seguinte, alguns preparativos precisavam ser feitos.
O principal deles, como explicara Maurice durante a tarde, era a Werá, ou cerimônia do desbatismo.
O renascimento de Barceló precisava ser precedido de sua total desvinculação com qualquer tipo de fé.
Ao por do Sol, Maurice, Marie e Barceló deixaram a casa em direção a uma pequena clareira no alto da colina.
Era véspera de lua cheia no último dia de inverno. Num céu sem nuvens, as pequenas gotas de sereno resplandeciam como o pó da prata.
- O pó da prata cobre os meus cabelos, a alma segue intacta, e o corpo nu em pelo ... – Maurice murmurou o cântico enquanto organizava os objetos que havia trazido sobre a relva úmida.
- Dispa-se, Barceló. Vamos começar.
Barceló tirou lentamente suas roupas, dobrando-as metodicamente e depositando-as sobre uma pedra próxima.
Seu corpo firme e de um bronzeado sem marcas, músculos bem definidos sob uma pele firme e quase sem pelos, lembrava o de um índio possuído pela força do leopardo.
O contato do corpo nu com frio da noite e a visão da silhueta de Marie sob o vestido branco, provocaram uma leve excitação.
Sete tochas foram acesas simetricamente ao redor da clareira.
Maurice vestiu sua capa ritual, ladeado por Marie que segurava duas pequenas ânforas, com água e óleo.
Ambos começaram a recitar as fórmulas secretas, numa ladainha contínua e inebriante.
O rufar de tambores ancestrais se fez ouvir, primeiro ao longe, suave e lentamente.
Na medida em que Maurice e Marie aceleravam e intensificavam o recitar das fórmulas, o som das batidas crescia, num ritmo cada vez mais frenético.
Ambos começaram a se movimentar em círculos, dançando em torno de Barceló, que permanecia no centro da clareira.
Barceló sentiu que era ele quem estava girando, suspenso do solo, capturado pela luz da lua e entorpecido pelo som das vozes e tambores.
Marie se aproximou e derramou a água sobre a cabeça de Barceló.
O líquido frio escorreu pelos cabelos, contornou os ombros e seguiu pela espinha até os dividir-se entre os glúteos contraídos.
De olhos arregalados e rosto tenso, Barceló resfolegou.
As palavras de Maurice falavam diretamente ao seu inconsciente, desorganizando seus pensamentos.
Marie tomou a segunda ânfora, ajoelhou-se diante de Barceló, derramou o óleo sobre as mãos e começou a espalhá-lo sobre o dorso nu.
O corpo reagiu ao toque suave e ao hálito morno, com espasmos ritmados na cadência dos tambores.
Marie prosseguiu, untando o abdome, a pélvis, as coxas, sempre com firmeza e suavidade.
Os tambores aceleraram. A voz de Maurice soava mais forte e impositiva. O toque de Marie acompanhou a nova cadência e Barceló sentiu que perdia o controle sobre seu corpo.
A última coisa que percebeu antes da explosão foi a maciez dos cabelos de Marie.


8 comentários:

Lú. disse...

Flávio meu querido, algumas considerações:
1- Rapaz, vc tá ficando bom nisso!
2- Enfim, um nú masculino...
3- Barceló ou Badaró, tanto faz.
4- Grande saída didática a primeira parte ,com uma síntese esclarecedora do "esqueleto" da estória.E finalmente,
5-"Tradicional familia cristã:não desafiam os "ditos" bons costumes, mas desafiam a razão".A clareza e a precisão dessa afirmaçao confirmam minha teoria:"Você é o cara do grandes títulos e das grandes "sacadas".
Um beijo e parabéns(de verdade).
Lú.

Ti disse...

Lú,

Concordância 100%!!!

Beijos

Flavio Ferrari disse...

Corrigido o Badaró (é essa influência nelsonrodriguesca).
Quanto ao nú masculino, atende à orientação da equipe de pesquisas do Arguta, que acompanha as opiniões das bloguespectadoras que acompanham a blognovela.
O resto, como de hábito, é gentileza das meninas ...

Anne M. Moor disse...

Uma leitura que flui e desenha imagens interessantes. Estes nossos poetas tem este dom. Walmir, tu que pintas poderias desenhar essas imagens que pulam do texto tanto do Flávio qto do Ernesto... Gostei... Estou tão cansada hoje mas mesmo assim uma sensação muito boa ao ler esta parte... Preciso ler tudo de novo...

Luisa Fernanda disse...

algo bueno debe venir,,,ya que es mucha descripción y poca acción...aguantemos la respiración para el clímax de la litutgia!

Flavio Ferrari disse...

Muita descrição e pouca ação ???
Bem ... depende do que cada um acredita que seja ação ...
De fato essa não é uma série newtoniana ... é quântica ...

Lu. disse...

É um filme europeu, não um americano.Rsss.
Personagens redondos(como dizemos em literatura). Bem trabalhados, com profundidade.
Bjo
Lú.

Ernesto Dias Jr. disse...

Bem, continuemos...