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domingo, janeiro 22, 2012

Mulher, embalagem e conteúdo

Já fui motivo de piada, mais de uma vez, por não reparar muito na aparência das pessoas.
Claro que uma morena de cabelos bem cuidados, olhos verdes e corpo escultural não passa despercebida, ainda que eu talvez não seja capaz de responder se era uma mulata ou uma japonesa.
Por isso mesmo, creio que possa discorrer sobre a importância da aparência com certa isenção.
As mulheres, maiores vítimas das exigências estéticas sociais, andam (finalmente) ameaçando se rebelar.
São várias as mensagens nas redes sociais (twitter e facebook) criticando os homens que escolhem suas parceiras baseados na aparência.
Na maioria dos casos, o discurso defende que a perfeição estética pode ser acompanhada de falhas de caráter ou "defeitos" graves de personalidade, e que um pouquinho de celulite e barriguinha são sinônimos de um melhor potencial de relacionamento.
Por experiência própria eu aceito que exista um fundo de verdade nessa afirmação, embora já tenha conhecido garotas esteticamente impecáveis e, mesmo assim, muito agradáveis, inteligentes e charmosas. 
Tenho para mim que as pessoas mais agradáveis são as que tem uma boa relação com elas mesmas.
Mulheres "perfeitas" não costumam ser agradáveis porque se impõem  grandes sacrifícios para alcançar e manter esse nível.  Lá no fundo, não se gostam e, portanto, não podem gostar dos outros.
Já as mulheres que se concedem pequenos prazeres, às custas de um certo "prejuízo" estético, costumam ser mais afetivas e condecendentes.  Gostam de ter e dar prazer.
E, convenhamos, nada mais sedutor do que uma mulher que gosta de ter e dar prazer.
Mas gostar de si mesmo inclui, necessariamente, um certo equilíbrio.
As diferentes gradações de atitudes, partindo de perfecionista e passando por disciplinado, cuidadoso, indulgente, descuidado, relapso, compulsivo e vândalo (para citar alguns matizes) são indicadoras da qualidade da relação da pessoa consigo mesma e, de algum modo, transparecem para quem está no entorno.
Nossa reação é semelhante à que temos quando vamos escolher um produto desconhecido na gôndola de um supermercado.  Uma embalagem descuidada nos leva a pensar, consciente ou inconscientemente, que o conteúdo recebeu o mesmo tratamento.
Da mesma forma, uma pessoa que não cuida de si mesma nos leva a intuir que tampouco será capaz cuidar de outras coisas menos importantes.
Não deixa de ser um preconceito estético, mas tem lá suas vantagens para a preservação da espécie.
É verdade que a maioria dos homens gosta de admirar exemplos próximos do que considera a perfeição estética e, quando isso acontece na forma de uma mulher, imagina o prazer de passar pelo menos uma noite com aquela obra de arte.  Mas se a perfeição estética da embalagem não vier acompanhada de um conteúdo minimamente aprazível, o relacionamento só continua se as neuroses forem complementares (ou seja, se o homem tem necessidade de pagar pelos seus pecados ou se precisa exibir uma mulher perfeita para compensar suas "imperfeições").  Não me parece ser o caso da maioria dos homens.
Por outro lado, não há nenhuma razão motivadora para que um homem comece um relacionamento com uma mulher auto-destrutiva, a não ser, também, por neuroses complementares similares (pagar pecados, salvar a humanidade começando por ela, etc.).
Existem mulheres fantásticas nos dois extremos da correspondência estética mas, por razões evidentes, são raras.
Fora dos extremos, a estética pesa pouco.  Pode facilitar a aproximação, estimular um primeiro contato, justificar um pouco mais de esforço, mas nada muito além disso.
O olhar, o sorriso, a conversa agradável, o respeito, o bom humor, o cuidado geral (cabelo, perfume, roupas, higiene), valem muito mais, e ganham importância a cada novo contato.

10 comentários:

Ana Andreolli disse...

adorei como vc descreveu a mulher, me senti lisonjeada :)

Flavio Ferrari disse...

Ana: tks. Qualquer dia eu posto uma descrição para valer .. rs

disse...

Auto-construtiva é interessante, né?

Sou mais um maravilhoso sabonete do que uma caríssima colônia.

Abraço

Sentimental ♥ disse...

amei essa parte: "...por neuroses complementares similares..."

Dri Andrade disse...

Flavio, vou te falar, estou escrevendo algo sobre essa coisa de preconceito, é inconcebível que em pleno século XXI ainda tenhamos pessoas com mentes tão limitadas e hipócritas.

A verdade é que, conteúdo e embalagem são ambos importantes, porém, um, não deveria sobrepujar o outro.

saudades viu?? Vc como sempre mandando muito bem.

ps: Acho que vc vai gostar do meu ultimo post...beijoss

Paulinha Costa disse...

Flavito, per-fe-iiiii-tooooo.

Eu sou um tanto desencanada com os padrões estéticos massacrantes. Ouço dos amigos homens exatamente o que você descreve aqui: "Já as mulheres que se concedem pequenos prazeres, às custas de um certo "prejuízo" estético, costumam ser mais afetivas e condecendentes. Gostam de ter e dar prazer.
E, convenhamos, nada mais sedutor do que uma mulher que gosta de ter e dar prazer."

Se a falta de tempo me obriga a escolher entre salão de cabeleiro/shopping e estar com alguém que eu gosto, eu fico sem fazer as unhas ou sem comprar, mas garanto meu prazer em estar viva!

Adorei passear pelo seu jardim! Bjsss

Flavio Ferrari disse...

Tks, meninas. Sigo defendendo a causa ...

Mary disse...

Legal, quando levantas a questão beleza X falta de inteligência. Porque teria que ser assim, necessariamente? Conheço mulheres belíssimas e de uma inteligência grandiosa. Porque essa rigidez de conceitos sobre as pessoas?Muito bom teu post.

Fernanda Rodrigues e Souza disse...

Adorei o texto! Continuarei visitando, com certeza!

Um grande beijo.

Fernanda
http://avidaemmiudos.blogspot.com.br/

Erika disse...

Adorei e concordo com tudo, incluindo dois pontos... Um deles eh que a grande parte das mulheres se arrumam mais para as outras mulheres, criando esse ambiente competitivo da beleza, e o outro eh que chegando a maturidade, esse culto desesperado aa aparencia diminui para algumas, que jah aprenderam que o conteudo tem mais valor para quem elas querem proximo. Bjs