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domingo, janeiro 15, 2012

A primeira mulher (versão grega)

O que a história faz com as religiões no decurso do tempo: transforma-as em miltologia.
E como a história é escrita (e reescrita) pelos vencedores, muito se perde das tradições, crenças, conhecimentos e costumes dos povos derrotados.
Muito do que sabemos hoje sobre a antiga Grécia devemos aos árabes e aos arqueólogos, já que os cristãos destruiram todos os registros conflitantes com sua religião, o que incluia as crenças "pagãs" e os estudos filosóficos e científicos.
Dessa colcha de retalhos que nos chega aos dias de hoje, retiro os elementos para contar como os gregos antigos explicavam o surgimento da primeira mulher.
Existem versões conflitantes sobre o tema, mas com alguns pontos em comum.
Epimeteu, sob a supervisão de Prometeu (ambos Titãs de terceira geração, netos de Urano e Gaia), havia criado o homem, último dos animais.  E como Epimeteu já havia gasto quase todos os seus recursos (asas, força, velocidade), Prometeu resolveu roubar o fogo dos deuses e dá-lo ao homem, para que ele pudesse reinar sobre os outros animais.
Também é consenso que Zeus criou a mulher para presentear os irmãos e esse teria sido o primeiro "presente de grego" (expressão popularizada mais tarde pelo cavalo de Troia), já que Zeus estava irritado com a história do roubo do fogo e queria punir Prometeu e Epimeteu.
Prometeu havia alertado o irmão a não aceitar presentes de Zeus, mas Epimeteu (cujo nome significa "aquele que pensa depois"), encantado pela mulher, esqueceu-se dos sábios conselhos.
A mulher chamava-se Pandora ("que possue todos os dons").  Foi criada nos céus, na morada dos deuses, e recebeu o melhor de cada um. 
Foi modelada por Hefesto à semelhança das deusas imortais, com seus melhores dotes.  
Atena deu vida à estátua modelada por Hefesto e ensinou-lhe as artes manuais (como a tecelagem). Afrodite ofereceu a beleza, o desejo e os sedutores encantos.  
Apolo presenteou-a com a voz suave do canto e a música.  
As Cárites (Aglaia, Tália e Eufrosina) ensinaram-na a dançar e a enfeitar-se com lindos colares de ouro.
Hermes conferiu-lhe o dom da persuasão, a graciosa e astuciosa fala.
Nesse ponto, alguém poderia se perguntar como é que semelhante presente poderia se transformar num castigo para os irmãos e sua criação.
Com algumas pequenas variações, o que se conta é que Pandora foi usada por Zeus para abrir uma caixa  (ou uma ânfora) que continha todos as desgraças que assolam a humanidade. Ela não o fez por maldade.  Não sabia o que havia dentro da caixa e decidiu abri-la movida por sua incontrolável curiosidade.
Não está claro quem teria dotado a mulher de tamanha curiosidade (talvez o próprio Zeus, às escondidas).  Mas fato é que, seja na versão que afirma que a caixa (ou ânfora) era de Epimeteu (que já havia usado todas as coisas boas e, portanto, apenas as ruins haviam sobrado) ou na que havia sido trazida pela própria Pandora,  ela teria sido alertada, em ambos os casos,  a não abrí-la.  Foi vítima de sua curiosidade.
Como essas histórias forma escritas por homens, é possível inferir sua visão atávica da mulher:
- é um presente dos deuses
- muito mais bem dotada do que o homem
- irresistívelmente sedutora
- causadora involuntária de todos os males
A versão que diz que a caixa era de Epitemeu é a que faz mais sentido pelo que conheço das histórias gregas, que costumam ter grande consistência interna.
Trata-se de uma alegoria que representa o esforço do homem para utilizar o melhor de sí em suas criações e reprimir o que considera negativo (deixando trancado na caixa), e seu medo de que a mulher, com todo seu encanto, o faça perder o controle e entrar em contato com suas paixões.
Ah ... ia me esquecendo de mencionar ... no fundo da caixa aberta por Pandora restou a esperança ...

5 comentários:

CHRISTINA MONTENEGRO disse...

Você é que nos volta a presentear com sua versão (sempre singularmente saborosa) de uma estória fundamental, no caso um mito. Esse fundinho da Caixa de Pandora é que carrego debaixo do braço onde quer que eu vá; inclusive quando lanço perguntas ao contingente masculino. Perguntas podem ser coisas eventualmente até dolorosas no imediato, mas são coisas boas, produtivas, encorajadoras, confiantes, e talvez libertadoras a médio e longo prazo, certo?... Bjs!

Vanessa Souza Moraes disse...

Que nos reste, também.

Layout bonito!

e daí? disse...

pois é, esperança nunca falta a nós...

to gostando bem do tema, bj

Ana Andreolli disse...

adorei o post, uma verdadeira aula! hahahaha =**

Débora Brotto e Ellen Garcia disse...

Muito bom, como sempre!