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sexta-feira, dezembro 05, 2008

O Rastro do Butadieno (10)

.... e se você perdeu, não deixe de ler os capítulos anteriores !

Capítulo 1 - A visita
Capítulo 2 - Sonhos e Safiras
Capítulo 3 - Um nome de mulher
Capítulo 4 - Perturbações Próximas
Capitulo 5 - A ponta do véu
Capítulo 6 - Segredos e Surpresas
Capítulo 7 - Lantejoulas
Capítulo 8 - Libido e Lascívia
Capítulo 9 - Ponto de não retorno



Ménage et Mémoire

Gusmão, nu, tentava controlar a descarga de adrenalina. O parco verniz civilizatório não parecia ser capaz de conter a reação instintiva do macho diante do território invadido.
Cristine, momentaneamente esquecida de seu parceiro, contemplava o fantasma encarnado, embevecida.
O ciúme do irmão de Giordi decrescia rapidamente, acompanhando o pênis de Gusmão, e era substituído por um turbilhão de pensamentos incongruentes.
A euforia pela súbita consciência de que Cristine, a sua Cristine, estava ali, nua, ao alcance de suas mãos. O terror de constatar que alguma coisa de muito errada havia acontecido com a Vizio e a intuição de que suas chances de voltar ao seu tempo seriam remotas. A deslocada preocupação com autorização do pagamento da mensalidade do seu novo sintetizador de alimentos. O desejo de haver vestido sua subdressing de linho ao invés da tech descartável habitual. A sensação de alarme pela presença do primitivo e raivoso Gusmão.
A situação não poderia ser mais surrealista.
- Cristine ....... – Nobrú, o irmão gêmeo de Giordi, supirou, aproximando-se e tocando suavemente o seio esquerdo da mulher dos seus sonhos.
Cristine tomou a mão de Nobrú e apertou-a contra seu seio, sorrindo.
- Você é real ........
- Que merda é essa ? – vociferou Gusmão. Se ia rolar um ménage, alguém podia ter me avisado antes, porra ! Quem é esse cara ?
Nobrú recuou um passo, distanciando-se de Gusmão, que havia se aproximado dos dois.
- Gusmão ... esse é ..... – começou Cristine.
- Nobrú, é meu nome. Nobrú Tesla. E vai ser muito difícil explicar o que estou fazendo aqui, Gusmão.
- Tesla ??? Você é parente do Bruno ? Nobrú ... Bruno ... Puta brincadeira de mal gosto !
Gusmão voltou-se para Cristine.
- Grande atriz ! Bela piada você, o Bruno e a Denise armaram.... Cadê os dois ? – olhou em volta procurando seu assistente e a fogosa namorada.
Cristine não havia prestado a menor atenção às palavras de Gusmão. Nobrú era tudo que interessava.
- Bruno Tesla ? Em que ano estamos ? Por volta de 2000, não ? – Nobrú parecia verdadeiramente supreendido.
- Deixa de palhaçada.
- Você não entende .... um antepassado meu, com esse nome, viveu nessa época. Meu nome é uma recomposição do dele. Foi a solução que encontraram para a falta de nomes em função da superpopulação do planeta. Toda família tem o direito de reaproveitar os nomes de seus antepassados.
Gusmão deu uma última olhada para Cristine e Nobrú, sacudiu a cabeça e começou a recolher suas roupas do chão, resmungando.
- É nisso que dá abaixar a guarda .... Mulher é foda ... não dá para confiar nunca. Amiga do Bruno, então .... imbecil ....
- Quem é você ? – Cristine perguntou, ainda hipinotizada.
Nobrú deixou Gusmão de lado por um momento e sentou-se na cama, ao lado de Cristine.
- Eu vim do futuro, Cristine. Futuro, para sua referência temporal. Na verdade, você está no passado, segundo a minha referência. Isso não deveria ser possível.
- Como assim ? – a magia dava lugar à curiosidade científica.
- Há aproximadamente 30 anos, no meu tempo, ou uns 400 anos a frente do seu do seu, um grupo de jovens estudantes do Servant encontrou as anotações de cientistas do século XXI sobre transporte de matéria, baseada em conceitos arcaicos de física e química quântica. As anotações descreviam uma máquina que havia sido batizada de Glúon Projecta, que seria capaz de projetar a matéria á distância através de uma onda portadora equivalente em espectro a um gás muito utilizado na época, chamado Butadieno.
Gusmão, com a camisa desabotoada e a calça semi-enfiada em uma das pernas olhava para o intruso boquiaberto. Glúon Projecta era o nome que havia imaginado dar para sua máquina, se um dia fosse capaz de construí-la.
Nobrú prosseguiu.
- Os estudantes decidiram, por pura diversão, retomar o projeto substituindo os conceitos quânticos antigos por colorários da anarcospínica. O resultado foi supreendente. Construíram uma projetor dimensional, uma máquina capaz de projetar a matéria para qualquer lugar no espaço e no tempo, não em sua totalidade, mas o que poderíamos chamar de sua essência, sua forma.
A mão de Nobrú havia descido para a coxa de Cristine, que ele alisava suavemente enquanto falava.
- Alguns anos depois, um dos jovens decidiu testar a máquina pessoalmente, e descobriu que a máquina também projetava a consciência o que, diga-se de passagem, colocou por terra o conceito de alma imaterial e complicou bastante a vida das antigas religiões, mas isso é outra história.
Nobrú distraiu-se momentaneamente com os pelos de Cristine.
- Bem .. para encurtar, hoje em dia todo mundo tem uma Vizio em sua casa e pode projetar sua consciência no espaço e no tempo, assistindo ao vivo eventos distantes geográfica ou temporalmente. Quanto mais potente a máquina, maiores as possibilidades de deslocamento.
- E você... ? - balbuciou Cristine, prendendo a mão de Nobrú entre as pernas.
- Eu estava assistindo você ....quer dizer, deveria estar assistindo ... mas por alguma razão, materializei-me aqui.
- Puta-que-pariu !!!!! – Gusmão gritou, levando as mãos para o alto. Puta que pariu ....

9 comentários:

Ti disse...

Que situação dificil... E que criatividade!!!

Adorei!

Ernesto Dias Jr. disse...

**deu.
E agora?

Érica disse...

então meu nome do futuro é Acire?

Cristiana Fonseca disse...

Este conto,( não li esta postagem, ainda me encontro no capitulo anterior, voltarei para ler este em breve)é simplesmente fantástico, escrita fascinante.
Abraços,
Cris

Anne M. Moor disse...

Bom... Better late than never! Acabo de ler tudo de uma sentada só e estou rodopiando entre o passado e o futuro com o presente escafedendo-se!!!!!

E agora José???????????

Tem tanta coisa docês dois neste conto... que em partes me fizeram rir!!!

Parabéns! Mais uma história misturando vidas...

Taís disse...

Ei! Muito boa pedida! Adoro esse tipo de leitura. Vou devorar tudim no fim-de-semana.
Obrigada pela visitinha lá no Scene.
Bjos

A.Tapadinhas disse...

Palpita-me que as complicações só agora começaram...
Abraço anarcospínico.
António

Udi disse...

Como é isso de projetar a consciência?! Outra história? Não dá pra ser nessa mesma?

Subdressing?! Eu estou por fora dos novos termos ou cê tá mesmo criando uma nova terminologia?

Adorei!

Jorge Lemos disse...

Envolvente, ao mesmo tempo abrasivo.