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quarta-feira, janeiro 19, 2011

Sobre a questão das opções

Já esperava que minha afirmação sobre os moradores de áreas ribeirinhas e de risco fosse gerar alguma polêmica.
É senso comum que  essas pessoas ganham um salário mínimo, não tem nenhuma instrução e estão vivendo alí por falta de opção.
É provável que uma parcela significativa se enquadre nos dois primeiros quesitos.  Não tenho esse dado à mão, mas desconfio que esse perfil se aplica mais a moradores de cortiços (moradias divididas por várias pessoas de familias diferentes, geralmente localizadas em regiões do centro decadente das grandes cidades) do que de favelas (perfil de habitação mais comum nas áreas de risco).
Mas, ainda assim, essas pessoas optaram por morar nesses locais, geralmente em função das facilidades que oferecem (localização e não pagamento de impostos, taxas, contas de serviços públicos) ou pelo fato de terem parentes ou amigos já residentes no local.
Sair de lá é difícil, complicado, trabalhoso e pode implicar em perdas.  Logo, entre correr o risco de inundação ou soterramento durante a época das chuvas (que pode não acontecer) ou complicar sua vida durante o resto do ano (que quase certamente ocorrerá), preferem a primeira opção.
Assim como preferem votar no político que promete fazer do que no político que já fez alguma coisa.
Promessas de um futuro melhor são sempre mais sedutoras do que o que já temos. (você dá uma caixinha para o garçon antes ou depois de comer ?).
Opções sempre (ou quase sempre) existem.  Desde as mais extremas como acampar na frente do palácio do governo e não sair de lá até que alguém faça alguma coisa, ou mudar-se para algum local público mais central (teve um sujeito que morou por anos numa pracinha próxima ao estádio do Pacaembú - de quando em quando a alguém da prefeitura aparecia para desmontar a sua cabana, mas no dia seguinte ele estava lá de novo, reconstruindo), até mudar de cidade, dividir espaço num cortiço, procurar algum emprego que ofereça moradia ...
Posso até concordar com a falta de opção dentro de uma visão mais filosófica, a partir da qual nenhum de nós tem, verdadeiramente, livre arbítrio, já que nossas decisões são determinadas pela carga genética, pela educação e pela influência cultural que recebemos.
O mecanismo psíquico que nos leva a imaginar que essas pessoas não tem opção é o mesmo que costumamos usar com relação ás nossas vidas, quando nos sentimos vítimas da situação, nos isentando (pelo menos parcialmente) da responsabilidade pelos problemas que nos acometem.
De qualquer forma, não sou sociólgo, psicólogo, urbanista e muito menos especialista no assunto.
Apenas tenho uma opinião que foge do senso comum.