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quinta-feira, março 01, 2007

Pecado e Capital


Parte 6 – Estrela da Manhã

Por fora era um Café, estilo europeu, janelas de vidros bisotados contornados por pequenos filetes de uma liga composta por chumbo e bronze.
O nome, Estrela da Manhã, revolvia o inconsciente provocando sinapses demasiadamente desconexas para estimular uma lembrança.
Os três atravessaram o salão providencialmente vazio apesar do horário passando por entre as mesas de pés torneados e tampo de mármore de carrára engastado.
Mesmo naquela situação Constância não pode deixar de admirar mais uma vez a delicadeza dos lustres de alabastro que ofereciam uma coloração de constante entardecer.
Dalton estava tenso. Jailton, nas nuvens, apenas acompanhava os passos dos dois colegas de trabalho.
Em sua mente dardejavam, em uma seqüência alucinante, as cenas despejadas ao som épico das trombetas diretamente em seu subconsciente que agora emergiam para as camadas mais superficiais da mente, tornando quase impossível qualquer contato com o mundo externo.
Cenas da criação do mundo, a expansão do universo, a vida surgindo naquele pequeno planeta azul, anjos, fadas, ciclopes e faunos, cascatas suspensas, imensas folhas verdes, flores multicoloridas e pássaros encantados. Uma explosão de vida, paz e felicidade como ele nunca havia sentido, visto ou imaginado.
A apaixonante sinfonia do Éden foi subitamente interrompido por de vozes tronitoantes em uma língua semelhante ao aramaico, que ecoavam denotando um embate de ódios viscerais.
E, num repente, a cizânia, o cisma e a desarmonia passaram a imperar. Dor, culpa, remorso, raiva, inveja ... finalmente a criação se completava.
E, como se fora uma luz de uma estrela monumental, um amor infinito por todas as coisas reuniu os estilhaços da explosão em um novo universo, movido pela energia dos confrontos entre forças e emoções paradoxais.
Embora tudo isso estivesse muito além da capacidade de compreensão de qualquer mortal, incluindo Jailton, ele se viu contaminado por aquele amor, e convicto de que havia um sentido em sua existência, que era cristalinamente perceptível, embora ainda desconhecido.
A tensão de Dalton evaporou-se ao entrarem no grande galpão, onde costumavam acontecer os encontros com Azazel.
Lindas mulheres nuas ou semi-nuas movimentavam-se pelo ambiente, com ingênua e impudica lascívia.
O aroma feromônico e as notas de uma música suave e inebriante subjugavam sorrateiramente a intenção e a atenção de mortais ou semi-deuses.
Azazael estava recostado em grandes almofadas de seda em tons vermelho e dourado, acariciando mansamente seu gato Borbah. Sua beleza sutil, etérea e assexuada contrastava com a exagerada sensualidade das duas mulheres que se abraçavam carinhosamente, deitadas a seu lado.
- Anjo não tem sexo ... – Dalton murmurou para si mesmo.
Recebeu os visitantes com um largo sorriso nos lábios e assustadora frieza no olhar.
Fez um gesto indicando outro conjunto de almofadas enquanto dois jovens nus, de corpos perfeitos, se aproximaram com ânforas e copos.
Se nem Afrodite soube resistir à beleza de Adonis, a alma puritana de Cosntância gritava em desespero a cada vez que se obrigava a enfrentar esse tormento.
A voz cínica de Azazel despertou Jailton:

- Deo ignoto de ore tuo te judico. De te fabula narratur !

10 comentários:

Anne disse...

Meu Deussssssss... que capacidade de nos transportar para dentro da cena!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Linnnnndo e carregado de significado... Thanks...

Udi disse...

Delícia de ler... me senti nas nuvens!
Totalmente lisérgico! (você tem feito respiração holotrópica?)
Mas, pelamordideus, traduz a frase do Azazel!

Udi disse...

uma perguntinha completamente fora do contexto (tanto quanto eu): por onde anda a Glaura? ...acabamos por nos "apegar" às pessoas que encontramos no Café.

Anônimo disse...

Flávio:
Vou lá e me deixa completamente sem graça, venho aqui e vou parar na Grécia...Melhor quietar um pouco e procurar um dicionário de latim.(Rsss).
Lú.

Ti bell disse...

Bela cena... Parece magia!!!

Antonio disse...

Muito bom! Aguardo ansiosamente a introducao de novos personagens ( talvez ja existentes de outras estorias - Carol-Eduarda e etc )

Flavio Ferrari disse...

Udi 1: Glaura vai bem, trabalhando muito mas acompanhando o blog. Perguntei porque ela não andava escrevendo e a resposta foi:
- Sem comentários ...

Udi 2 (e demais preguiçosos):
Deus ignorado, te julgo pelo que diz. A fábula fala de ti.

Antonio: aguarde ... seu pedido será atendido, com o prazer das boas memórias.

Meninas: que bom que gostaram da cena. Foi difícil passar para o texto o que imaginei, e ainda assim ficou aquém da imaginação. Mas contava com vocês ...

Amanda Arthur disse...

Nossa!!! Vocês estão inspiradíssimos.
Isso tudo está me lembrando as brincadeiras de "complete a história" de quando era criança...
Genial!

Anônimo disse...

O nome desse café ...Tantas lembranças...Nas personagens e nos leitores.Emoção.
Lú(Lúcia).

Anônimo disse...

Flávio:
Achei uma imagem (linda) na web, que é a cara desse conto(mais específicamente desse capítulo).Passei pro Ernesto.Peça prá ele, se sentir curiosidade(nao tenho seu email).Pode ser o verso da que vc colocou.bj.
Lú.