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sábado, março 10, 2007

Pecado e Capital


Parte 10 – Vox populi, potere Dei


Quando Jailton despertou de sua viagem-sonho com Azazel, já não estavam no mesmo galpão.
Anjas e almofadas haviam dado lugar a um suntuoso gabinete, digno de um mega-investidor internacional.
Por de trás de uma imponente escrivaninha de mogno, entalhada com um cuidado miquelângico, sobriamente acomodado em uma poltrona de espaldar alto, estofada com couro de antílope negro, Azazel trajava seu Armani risca-de-giz e brincava com a caneta Montegrappa Sophia, que flutuava entre seus dedos.
Na parede, um conjunto de enormes monitores de alta resolução mostravam cotações associadas a diversas partes do planeta.
Tapetes, quadros, vasos e estatuetas antigas compunham os detalhes da decoração.
Jailton observava distraidamente o ambiente, enquanto mentalmente repassava as imagens da viagem, em tudo semelhante àquela estimulada pelo powerpoint que receberá no escritório mas, entretanto, muito diferente.
Alguns fatos cronologicamente re-alinhados, e umas poucas sutis discrepâncias, alteravam completamente o sentido geral da história.
Ao invés daquela tocante sensação de plenitude, resultante da primeira experiência, Jailton experimentava laivos de feroz indignação, motivados pelo sentimento de manipulação.
- Vocês estão brincando comigo ... – o tom de Jailton não chegava a ser agressivo, mas deixava claro que não estava disposto a participar dessa brincadeira. Onde está a verdade, afinal ?
- A verdade, meu caro Jailton, está por toda a parte. A questão é qual é a sua verdade – Azazel frisou o “sua”, inclinando-se na direção de Jailton e apontando a Montegrappa.
- Já chega de jogo de palavras, malandrão ... qual é o negócio ? – o ambiente claramente influenciou a pergunta do Jailton.
- Pecado .... e Capital ....
- Não enrole ... vá direto ao ponto !
- Meu caro ... o poder dos Deuses é diretamente proporcional a fé dos homens. Um Deus em quem ninguém mais acredita é um Deus morto. Em contrapartida, um Deus com milhões de almas tementes é um Deus vivo e poderoso. E o Pecado é o grande golpe de marketing daquele que é o Todo Poderoso. Ao instituir os conceitos do bem e do mal, criou o conceito do Pecado e, por conseqüência, a necessidade do perdão para obter a salvação. E o temor, o medo da danação. Os Deuses anteriores eram mais liberais. Cobravam tributos para garantir a felicidade, e aceitavam a concorrência saudável. Esse não. Estipulou que todos vivem em permanente pecado e que necessitam nele crer e a ele temer para merecer, talvez um dia, a salvação. Deixou claro que prestar tributo a falsos deuses (os outros) era um pecado imperdoável, passível de destruição. A principio os demais deuses não levaram a sério o neófito. Que mortal, em sã consciência, seria tão estúpido para preferir um Deus assim, autoritário, despótico e baixo-astral ? E, que ainda por cima, aniquilava os pecadores reduzindo seu “capital”.
- Conheço vários ... – Jailton deixou escapar.
- Pois é ... a maioria dos mortais, lamentavelmente. Bons tempos aqueles dos Deuses Gregos. Cada um representando uma relevante aspecto do ser humano.. o amor, a guerra, a inteligência, a comunicação, o prazer ... E os humanos, pagando tributos a diferentes Deuses, garantiam o equilíbrio da alma. Pobres Deuses .. todos mortos. E pobres mortais, vítimas da tirania monoteísta. Eu ainda não era um anjo nessa época, embora após o último re-arranjo dos fatos na linha temporal já não possa dizer isso.
- Mas se esse Deus tem tanto poder, para que precisa de mim ?
- Para implementar novos procedimentos de renovação da fé, ou seja, para aumentar seu capital de almas tementes e garantir sua perenidade. Está vendo os gráficos nos monitores aí atrás ? As curvas são descendentes. Em todos os cantos do planeta a fé nesse Deus está diminuindo, lenta e inexoravelmente. Ele precisa tomar alguma providência, enquanto ainda tem poder para isso.
- E eu com isso ?
- A fé é um dom mortal, e só pode ser despertada e cultivada por mortais. Por isso, todos os Deuses tem, de um modo ou de outro, seus sacerdotes ou sacerdotisas na Terra. O Todo Poderoso foi quem reuniu o maior número de representantes de sua fé na história da humanidade, travestidos em diversas religiões, mas todas adorando o Deus único. E tem sido esperto o suficiente para, de quando em quando, promover mudanças radicais lançando mão de um eleito. O último escolhido foi há aproximadamente 2000 anos pelo tempo terrestre. Ele aceitou sacrificar-se para glória do Pai. Agora, é a sua vez de decidir, Jailton.
- Mas decidir o quê ?
- Você saberá, no momento oportuno. Minha participação termina aqui. Agora é entre você e Gabriel ...
- Mas que Gabriel ?
Azazel sorriu marotamente, virou-se de costas para Jailton e arremessou sua caneta contra o monitor central.
A Montegrappa cravou-se no centro da tela e uma luz intensa e alva projetou-se do ponto de contato, como uma super-nova, ofuscando Jailton.
As trombetas soaram e Jailton pode distinguir o farfalhar de asas.
Subitamente, a silhueta impressionante de um anjo interpôs-se ente Jailton e o foco de luz. Uma sombra com enormes asas abertas empunhando sua reluzente espada.

8 comentários:

Anne M. Moor disse...

Também gostei... muito! Providencial para um sábado de manhã, véspera de domingo. Parabéns. Os neurônios pensantes estão se engalfinhando enquanto discutem a Parte 10!!!!!!!!!
By the way, comprei o teu livro "Tirando o Macaco" e estou dando barrigadas de riso. Muiiiiiiiiiito bom. Esperamos que o próximo livro, agora em parceria com o Ernesto, será Pecado e Capital.

Ernesto Dias Jr. disse...

Filho da puta!
Agora, platéia querida, é minha vez de usar as palavras do Flávio:
Vocês vão ter que esperar...

udi disse...

Ai que suspeeenseeeee!

Anne M. Moor disse...

Tinha que poder inserir figuras nos comentários...

Luisa Fernanda disse...

Flavio, ja tó ficando preocupada, a opera Rock, serã Barbor,ou Pecado Capital?...as musicas serian totalmente diferentes e também as coreografías..tambem me preocupo porque en esta tu obra se peca de una sola cosa....
(comenta la irreverente de La Tecladista)

Anônimo disse...

Anne:Tb acho,já até tentei fazer isso, mas acho que não dá mesmo.
Flávio:Tô tendo que caprichar no inspira,expira...Tá me dando uma enorme ansiedade.Acho que vou tomar uma fluoxetina(rss).
Lú.

Anônimo disse...

Grande força materializadora de imagens no capítulo.Poder de tansporte e condução.Vi a claridade explendorosa e pungente de Gabriel.
Deliciosa sensação!
O que remete também, dentre as muitas vozes do texto,a eficiência talentosa do seu autor.
Parabéns Flávio.
Lú.

Amanda Arthur disse...

Pensei que ia aparacer um anjo mexicano de sombrero... Pode-se esperar tudo de vocês! Mas, uma vez mais, superação de expectativas. Concordo com a Anne que um livro a quatro mão com o Ernesto promete!