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sábado, março 17, 2007

Pecado e Capital



Parte 12 (final) - A recusa


Jailton abriu os olhos vagarosamente, a mente anuviada por fragmentos de lembranças tumultuadas, olhos embaçados e um forte gosto de cravo na boca.
Sua primeira visão foi a de um teto branco. No centro o globo de vidro leitoso de uma luminária obscenamente pequena. Os batentes da porta e da janela colonial, enorme e antiga, também eram de um branco algo amarelado pelo tempo.
Um quarto grande, parcamente mobiliado. A pequena cadeira no canto próximo à janela parecia estar à espera de alguém tímido que ali sentasse de cabeça baixa e as mãos enfiadas entre os joelhos. Sobre o pequeno criado-mudo ao lado da cama de metal pintado apenas um copo plástico com água.
Tudo branco e pálido, sem brilho ou alvura. Apenas desbotado até que não restasse qualquer resquício de cor, como o tecido de sua camisola.
A porta do quarto abriu e Jailton dirigiu para lá seu olhar amortecido.
Gabriel, vestindo um jaleco branco, aproximou-se da cama com um olhar terno e acolhedor.
- Acordou meu caro Jailton ... que bom. Está se sentindo bem ?
Jailton acenou com a cabeça sem muita convicção.
- Fique tranqüilo. Você está entre amigos agora. Estamos cuidando de você e nada de mal vai lhe acontecer ...
Jailton esboçou um pensamento incompleto. Num laivo de curiosidade tentou imaginar ao que ele estaria se referindo.
- Você passou por maus momentos nesses últimos dias. Agora, precisa descansar para se recuperar. A enfermeira vai lhe injetar um sedativo leve para que você possa dormir mais algumas horas com tranqüilidade.
Uma enfermeira de grandes olhos azuis e cabelos presos num coque de trança, como ha muito Jailton não se lembrava de ter visto, aproximou-se por de trás de Gabriel oferecendo uma reconfortante visão de seu colo, prenunciando o generoso par de seios.
Antes que Jailton pudesse esboçar qualquer pensamento libidinoso, a realidade colapsou-se e ele voltou a dormir.
Gabriel e a enfermeira deixaram o quarto.
Do lado de fora, Dalton e Constância aguardavam com evidente preocupação.
- Como ele está ? – Constância disparou, mal a porta havia se fechado.
- Melhor, agora... – respondeu Gabriel. Está sedado e deverá dormir por mais algumas horas.
Estela, que observava tudo à distância com olhos vermelhos, aproximou-se.
- Encontrei ele hoje de manhã, desmaiado na frente do computador – disse. Deve ter ficado lá desde sexta-feira. Não consegui acordar o Jailton de jeito nenhum. Aí a Tan e o Dalton chegaram ... Chamamos uma ambulância....
Estela não conseguiu terminar a frase, interrompida pelo pranto engasgado.
- Ele estava em estado catatônico – esclareceu Dr. Gabriel, o psiquiatra da clínica.
- Eu vim com ele na ambulância – continuou Dalton. Ele balbuciava coisas sem sentido, falando de anjos, de uma missão... Uma hora tentou levantar da maca onde estava preso gritando “eu não vou ajudar esses filhos-da-puta de jeito nenhum... nem por um cacete ... posso ir para o inferno...”. Tive que segurar o cara para ele não virar a maca. Estava furioso.
- Vamos ter que deixa-lo aqui por mais alguns dias, em observação. Mas pelo que vocês me contaram, e pelo pouco que pude conversar com ele quando chegou, estou fortemente inclinado a acreditar que o amigo de vocês sofre de um distúrbio chamado de esquizofrenia catatônica.
- Mas o que é isso, doutor ? – constância perguntou preocupada.
- A esquizofrenia catatônica é um quadro psíquico grave, caracterizado por distúrbios psicomotores proeminentes que podem alternar entre extremos tais como hipercinesia e estupor, ou entre a obediência automática e o negativismo. O fenômeno catatônico pode estar combinado com um estado oniróide com alucinações cênicas vívidas.
- Ai doutor ... – Estela estava agoniada. Não estou entendendo nada ...
- Em linguagem mais simples, o Jailton provavelmente sofre de um disturbio mental, que provoca alucinações persecutórias. É o que chamamos de Esquizofrenia. Em alguns casos a pessoa segue se comportando quase normalmente, conversa com os amigos, trabalha, faz as coisas do dia a dia, mas tem uma percepção alterada da realidade. Escuta vozes, tem visões ... No caso do Jailton ele simplesmente “desligou” durante o surto. Ficou, como disse, em um estado catatônico.
- E isso tem cura, doutor ? – quis saber Dalton.
- Tem tratamento, através de antipsicóticos ou neurolépticos. Essa medicação reduz muito ou até elimina os sintomas mais graves do distúrbio e permitem que o paciente tenha uma vida normal. Lamentavelmente, na maioria dos casos, não se pode garantir que não volte a ocorrer um novo surto. Mas isso não impede que a pessoa tenha uma vida produtiva em todos os sentidos. Não sei se vocês assistiram aquele filme “Uma mente brilhante” sobre a vida do matemático John Nash.
- Eu assisti ... é lindo ... – Estela acenou ansiosa.
- Pois é ... John Nash era esquizofrênico, mas manifestava uma outra modalidade do distúrbio que chamamos de paranóide. Naquela época, inclusive, os medicamentos não tinham a eficiência dos de hoje. E isso não impediu que ele fizesse importantes contribuições para o mundo. Ganhou até um prêmio Nobel. O Jailton poderá ter uma qualidade de vida muito melhor hoje do que ele em seu tempo.
- E o que devemos fazer, doutor ? – Dalton, embora não tivesse muita intimidade com o Jailton, estava disposto a ajudar o amigo no que fosse possível.
- No momento, como disse, preciso mantê-lo em observação para fechar o diagnóstico. Aí ele será medicado adequadamente. Vamos mantê-lo na clínica por alguns dias, já que ele não tem família na cidade. Creio que de duas a quatro semanas será suficiente. Depois disso, é possível que ele passe por um período de depressão. Vamos fazer um acompanhamento psicológico durante uns meses ...
- E nós, o que podemos fazer ? – Estela tinha lágrimas nos olhos.
- A receita é compreensão, carinho e sobretudo, respeito. O distúrbio é grave, mas pode ser tratado, e não faz dele uma pessoa menor. É importante que vocês, que conhecem o problema, se relacionem com ele como sempre se relacionaram. E, se possível, fiquem atentos para alterações significativas de comportamento, ausências e desmaios. Mas, por favor, sem exageros.
- Posso entrar no quarto para ver o Jailton ? – o tom de voz de Estela era de súplica.
O médico hesitou mas não resistiu à intensidade do sofrimento de Estela.
- Está bem. Mas só por alguns minutos e, por favor, procure não perturba-lo.
Estela entrou no quarto vagarosamente.
Em silêncio, deslocou a cadeira para perto da cabeceira da cama. Abaixou a cabeça e, tímida, colocou as mãos entre os joelhos como que para evitar tocar o rosto de seu amado.
Lágrimas brotavam de seus olhos aos borbotões. Seu peito tremia e o corpo balançava ao sabor dos soluços, naquele instante eterno.
A luz que entrava pela janela ao por do sol conferia um tom violáceo ao quarto e refletia em seus cabelos dourados, formando como uma aura em torno da face lívida.
Com uma força insuspeita, e derrmando toda a intensidade da alma, Estela murmurou engasgada, mas com firmeza:
- Nunca vou deixar que nada nem ninguém de faça mal, Jailton. Nunca ! Eu prometo. Vou cuidar de você para sempre.

_____________


Cair da tarde.
A cidade vista do alto, mas aproximando-se rapidamente, tal qual a visão de um pássaro em pleno mergulho.
A velocidade se reduz com a proximidade, e estamos alinhados com a rua principal, em uma tomada panorâmica.
Edifícios conhecidos e pessoas familiares vão passando de ambos os lados, em confortante seqüência.
Na porta do Degas, Celeste, a hostess, conversa preguiçosamente com o primeiro cliente, exibindo seu sorriso angelical.
Mais à frente, através da vitrine da rotisserie do Eduardo, vislumbramos sua mulher e a filha Carol preparando a massa dos inigualáveis croissants e conversando carinhosamente.
Na porta da oficina mecânica, Leonardo, de macacão azul impecavelmente limpo, instrui o mecânico encarregado do carro de Jailton, que havia sido deixado para revisão dias antes. Na parede, uma folhinha do Louvre com reproduções de quadros famosos, presente de Dona Sofia, mulher do Dr. Almeida Passos.
Na banca de jornais, Iziquiél, o rapaz gago contratado pelo proprietário para ajuda-lo na organização das revistas, dava polimento à uma grande estrela de bronze que decorava a entrada, atraindo a atenção das moçoilas passantes por seu porte atlético contrastando com uma beleza quase feminina.
No final da rua, Jailton deixa o escritório e vem ao nosso encontro, iniciando a caminhada de todos os dias em direção ao Degas.
Subimos vertiginosamente em direção ao sol poente.
No campo periférico de visão, contra o azul violáceo do céu, penas brancas surgem e desaparecem, como pontas de asas em movimento rítmico.
A cidade se perde na distância enquanto penetramos nuvens alvas que se metamorfoseiam à nossa passagem.
Trombetas soam ao fundo.

13 comentários:

Anne M. Moor disse...

E uma sensação de missão cumprida... com tantas leituras possíveis que estou rodopiando feito pião... Doze capítulos de uma viagem pelos sentimentos... Brilhante... Súper parabéns aos dois - Ernesto e Flávio - por ter nos convidados a subir nesse 'trem' e viajarmos juntos com vcs... Aiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii ...

Ernesto Dias Jr. disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Ernesto Dias Jr. disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Ernesto Dias Jr. disse...

Não importa onde esteja
Mortal ou imortal alma
Não importa o que seja
A pena em tua palma
Nem o sonho que viva
Gozo ou pesadelo
De pedra ou algodão
O peso que sentes
Ou posto foi
No coração

Tudo se esvanece, como fátuo pó
Se bem junto a ti a celeste estela
Verter a lágrima, uma só
De amor

Ti disse...

Flávio,

Belo final... Principalmente porque nasce a esperança de termos O Pecado Capital 2!!

Foi realmente uma viagem maravilhosa... Sentimentos, conceitos, pré-conceitos, verdades, mentiras, realidade, sonho... Apenas 12 capítulos capazes também de juntar bons amigos!!

Parabéns aos dois...

Ernesto Dias Jr. disse...

Obrigado, parceiro, pela aventura vivida.
Retornei esta manhã à sua sala no Ibope, 1995, para onde me atraía a cumplicidade dos que têm alguma coisa a dizer. Preâmbulo, esse sim, do que viria depois de um hiato de mais de dez anos.
Nem a Física, essa amante minha, explicou tão bem quanto essa lembrança que o tempo não dura, afinal, um segundo a cada segundo.

Anônimo disse...

Um brinde:

à magia
à arte
aos homens e anjos
à alegria e bom humor
ao imorredouro amor
ao encontro.

TIM TIM



.

Flavio Ferrari disse...

Tô sentindo uma certa tristeza no ar ...
O poema do Ernesto precisa ser incorporado ao último capítulo, perfeito.
E Lú, que poder de síntese, menina...
Ti, continuação, nem com a tua inspiração ...
Anne, a nossa grande leitora, é uma honra que coloque de lado por um instante as Clarices, Cecílias, Paulos, Arthures e outros tantos para incentivar estes pobres engenheiros da escrita ...

Anônimo disse...

Flávio,
Sua marca na engraçadíssima descrição "científica" da esquizofrenia.
E no brilhantismo de "a realidade colapsou-se".
"Very, very beatifull"-rss
Valeu. Por tudo.

Lú.

udi disse...

Emoções compartilhadas e já expressas por todos.
Flávio, este último capítulo é uma mágica maravilhosa com as palavras.
Prá dizer o mínimo: enquanto lia, suas palavras me levavam, ao mesmo tempo, por todos os episódios anteriores com a sensação de que Céu e Terra estavam muito próximos.
Muito mais a dizer ainda.´
Termino a leitura com o seguinte verso de uma canção do Gil tocando em meu coração: "O melhor lugar do mundo é aqui... e agora"
grande beijo agradecido aos 2!

Flavio Ferrari disse...

Tks Udi ... foi bom para mim também.
ps - tirei o copo

Lú - URGENTE - Preciso da sua foto ...

Anônimo disse...

Flávio, mandei ontem a noite.Tô mandando de novo.
Lú.

Anne M. Moor disse...

Flávio!
O que é isso: "...para incentivar estes pobres engenheiros da escrita..."?? E lá vcs dois precisam de incentivo? De pobres vcs, meus amigos, não tem nada... A riqueza dos textos é um delírio pra muitos... Um amigo, certa vez, definiu o que eu quero dizer ao falar em 'delírio da leitura'. Ele disse:
"Acho que entendi o "teu" delírio como um lance mais pro delirante, pra maluquice, pra delícia da digressão, da desmesura, do desmedido.
Do "bão" que é papo furado numa beirada de lareira, ao redor dumas taças de vinho.
Asas ao espírito e à imaginação."
A escrivinhação tua e do Ernesto faz isso. Continuem... Certamente, as leitoras desta comunidade agradecem... :-)